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A sociedade ociosa

Dizem que a Troika não tem respostas para o desemprego. E eu acredito. Que o desemprego deixa assustado o atual governo deste país. E eu acredito. Que o fenómeno não é só nosso e que, infelizmente, está a ser comum em muitos outros países. E eu acredito porque é verdade.

Paulo Fafe
4 Jun 2012

Acredito porque, no meu entender, o desemprego vai ser a marca constante da sociedade em que já vivemos e na em que irão viver os filhos e os netos. Há que dizer que se aproximam tempos em que o desemprego vai ser a consequência normal da sociedade tecnológica.
A  tecnologia está a ser a grande responsável pelo desemprego, por uma série de razões muito simples: substitui a mão de obra, logo aumenta o desemprego; faz mais e melhor, logo inunda os mercados; inova no  desenho, logo substitui os criativos; cria novas matérias primas, logo substitui os laboratoriais. A fábrica ou oficina, com milhares de funcionários acabou; vai reduzir-se a umas centenas de experts em tecnologias porque vão criar, dimensionar e distribuir no tempo dum clic.
O que foi uma “utopia” virou realidade. Lembram-se, há bem pouco tempo, era utopia assistirmos, recostados na poltrona, em tempo real, a um acontecimento de qualquer parte do mundo; era utopia assistirmos, no remanso de nossas casas, aos jogos olímpicos, ou a um jogo de futebol mesmo que nos antípodas; era utopia enviar um e-mail à redação do jornal em vez de levar o papel escrito; era utopia telefonar da rua em vez de ir à cabine pública; era utopia a telemedicina em vez de ir ao consultório médico; era utopia assistir a conferências de imprensa sem ser presencialmente; era utopia  poder fechar persianas ou acender o fogão de casa, à distância; era utopia pagar, comprar ou transferir contas, sem ir aos balcões das instituições; era utopia pilotar um avião sem piloto ou conduzir um veículo em hora de ponta sem o condutor.
E, no entanto, uma pessoa e um PC fazem isto tudo sem interferência de dezenas de funcionários; não será preciso assaltar um banco para lhes arrombar os cofres fortes, porque os que sabem de tecnologia de ponta fazem-no com um computador. Os documentos militares top secret podem ser desvendados com a maior das facilidades. Já se paga a espertos para travar espertos. É possível vender, comprar, anunciar, sem largar a comodidade do sofá. Já há portagens sem portageiros, já há caixas de supermercados sem operadoras de caixa e assim “sucessivamente sem cessar”. Isto é desemprego. Com a robotização a ganhar espertezas e destrezas humanoides, o homem será substituído gradual, mas inexoravelmente, do seu posto de trabalho: em casa, no campo, no escritório, no balcão, na montagem, na carga e descarga, nos incêndios e até na guerra!  Nenhum emprego está a salvo desta devoradora tecnologia de emprego.
Então que será feito da mão de obra? Como vai organizar-se esta sociedade tecnológica? Não sabemos, mas sabemos que o mundo do trabalho jamais terá a dimensão da empregabilidade de hoje. É por isso que, com tudo isto já a acontecer no nosso tempo, o desemprego não será resolvido, nem pela Troika, nem por este governo ou pelos governos que hão de vir. Estamos nós, presentemente, e eles, no futuro, a tentar sarar a doença com remédios de ontem quando a doença precisa de remédios de amanhã. E para essa doença social do desemprego ainda a economia e as finanças não encontraram a fórmula mágica, o antídoto salvador. Mas, entretanto, é preciso arranjar como tratar a doença de hoje! O subsídio é degradante, cheira a esmola, mas sempre é melhor que a fome.




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