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Um modelo de humanidade

Alguém perguntava se, para ser santo como Bernardo de Vasconcelos, era preciso ter assim qualidades poéticas. Que eu saiba, não. Um santo é um ser humano com limitações como todos os outros; só se diferencia deles no seu desejo e esforço constante de aperfeiçoamento ilimitado, porque a perfeição não tem limites. Precisa de se transcender a si mesmo em todas as dimensões humanas e todos os dias.

M. Ribeiro Fernandes
3 Jun 2012

Ser perfeito, enquanto homem, depende de si, da sua coerência de vida, da sua ética pessoal; mas, ser santo está para além da sua ética pessoal e do seu esforço, embora os implique completamente, porque só Deus o pode santificar, à medida que o seu coração o descobre na intimidade e se apaixona por ele. Só o amor santifica.

1. Independentemente da sua dimensão poética, cristã e mística, Bernardo de Vasconcelos devia ser dado a conhecer aos jovens, antes de mais, como um modelo de humanidade que se empenhou em desenvolver
as suas qualidades pessoais para poder ser útil aos outros. Embora não haja modelos únicos, porque a vida tem muitos caminhos, o seu exemplo de humanidade, mesmo para quem não valorize a sua dimensão cristã, é um extraordinário modelo de qualidades humanas sublimadas pela fé que todos os que o conheceram admiravam. E o nosso tempo precisa muito de modelos que estejam para além do mero pragmatismo de interesses.
Foi um jovem com sonhos e projetos de vida como qualquer outro; pensou em constituir uma família como qualquer outro e teve uma namorada; quis ir para a Marinha, mas a saúde não lho permitiu; pensou em seguir a carreira diplomática, mas acabou por optar pelo curso do pai, com quem se identificava muito positivamente; andou à procura do seu caminho de vida e, por fim, no seu idealismo poético, escolheu ser beneditino (chegou a fazer votos iniciais, mas a doença não lhe permitiu continuar, tendo falecido em 1932, após cerca de oito anos de sofrimento). O significativo neste percurso de vida é que sempre cultivou um ideal e procurou segui-lo; hoje, fala-se apenas de pragmatismo utilitário. É importante ser pragmático na vida, mas pragmatismo sem ideal é como uma noite de sono sem sonhos.

2. Era apaixonado pela vida, como todos os jovens. Tão apaixonado que, pouco antes de falecer, desabafou que ainda não estava preparado para morrer porque continuava a gostar de viver e de realizar os seus sonhos de vida. Foi um jovem como qualquer um de nós. Só foi melhor do que qualquer um de nós no contínuo aperfeiçoamento pessoal e no sentido cristão que deu a esse aperfeiçoamento na intimidade da sua fé. E foi o apelo dessa intimidade de fé que fez dele um artista da vida: na delicadeza de sentimentos aliada a uma forte determinação de vontade; no sentido de cultivar a amizade e a tolerância; no esforço de estudar mesmo quando a doença lho dificultava; na preocupação do bem comum, a que se dedicou com paixão; no esquecer-
-se de si para se preocupar com os outros, apesar do seu sofrimento; no saber esquecer-se de si e ter sempre generosamente uma palavra de conforto para os outros e de compreensão para os seus problemas; em lutar sempre pelos seus objetivos de vida, apesar das dificuldades; no cultivar as qualidades humanas de bom relacionamento.
3. Não foi apenas um poeta da vida, mas um artista plástico da vida interior. O Cardeal Cerejeira escreveu que “nenhum artista da terra fez jamais obra que se aproximasse daquela que o Bernardo de Vasconcelos realizou na argila humana”. Através dos seus escritos, nota-se uma polidez de qualidade de relação, sem afetação e com grande simplicidade. É importante sublinhar, hoje, esta dimensão humana de compreensão sem esquecer a procura da verdade e da justiça. Esta simplicidade é sinal de uma maturidade elaborada que não precisa de ser rebuscada para se afirmar. Quanto mais rebuscado se é, menos verdadeiro e menos claro.
É nisso que o comparo com Santa Teresinha do Menino Jesus, que sempre manteve aquela aura de menina adolescente e sonhadora que falava de Deus com uma linguagem tão íntima e tão filial que desconcertava quem a ouvia. Um verdadeiro modelo de confiança-básica da fé.
Lembrando o Dia Mundial da Criança, penso que os tempos de hoje precisam de reaprender a humanidade, precisam de um novo sentido pedagógico materno-infantil que cultive o valor das qualidades humanas como Bernardo de Vasconcelos se esforçou por cultivar.




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