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A falar… é que a gente se (deve entende(r)

Nesta fase do ano, há sonhos transformados em pesadelos quando muitos jovens atletas são informados que, na próxima época, não poderão continuar a praticar a sua modalidade de eleição no clube que representaram no decurso da presente época desportiva. São as chamadas dispensas, tão dolorosas, mas inevitáveis em clubes que procuram e privilegiam o rendimento.

Carlos Mangas
1 Jun 2012

Nem todos podem continuar, mas todos devem ser informados condignamente das razões dessa decisão para não se sentirem (ab)usados. Enquanto docente e técnico ligado ao futebol de formação, não posso nem devo esquecer que, apesar de ter terminado a época desportiva, a escolar ainda não acabou, e o aluno, diminuído enquanto atleta, merece que as opções tomadas lhe sejam convenientemente explicitadas.
Se no clube se trabalha bem, a conversa não precisa ser muito longa, porque ao longo do ano, nas convocatórias e avaliações intermédias, o treinador já deu a conhecer a coordenadores e atletas, a sua opinião, e o jogador também se vai apercebendo se é ou não opção para jogar, e estará minimamente preparado para o desfecho final.
É no entanto pedagogicamente importante e da mais elementar justiça que os atletas “a quem sai a fava” sejam informados pessoalmente pelo treinador, das razões que levam o clube a abdicar dos seus préstimos. E estou tanto mais à vontade para o dizer, quanto nos meus últimos três anos como treinador, no maior clube da nossa região, orientei um escalão (Juvenis) em que sensivelmente 50% dos atletas eram dispensados no final da época, não por falta de qualidade, mas porque metade da equipa júnior se mantinha e consequentemente o espaço de afirmação estava fechado. Quantas vezes “senti na pele” os sonhos que matava naquela conversa individual e personalizada que fazia questão de ter, com todos eles, sempre muito difícil, que amiúde originava lágrimas de parte a parte. No entanto, o respeito que nos merecia (e tem de merecer) um atleta que connosco trabalhou, um ou mais anos, impunha que na hora da verdade não nos refugiássemos num papel afixado na parede (como nas convocatórias ao fim de semana) ou numa conversa em grupo, impessoal, obrigando-nos a ser sinceros e também a sermos confrontados com os sentimentos que causávamos.
Penso também que a instituição a que o atleta pertence deve fazer os possíveis por o ajudar a encontrar um outro clube, se calhar integrado num quadro competitivo menos exigente e mais adequado às suas potencialidades, onde ele possa expressar e desenvolver a sua qualidade desportiva.
Assim como na escola não temos todos capacidade para obter elevado rendimento que em termos académicos nos leve ao “curso de sonho”, também no clube isso acontece e tem de ser visto com normalidade. O que não pode nem deve acontecer nunca é alguém desistir de estudar porque não consegue elevado rendimento, ou desistir de praticar desporto porque o treinador x ou y entende que não temos potencial para o fazer num determinado clube. Se nos referimos a escalões jovens, a qualidade de um treinador também se deve medir por isto: nenhum atleta deve abandonar o desporto, por nossa causa.
Quantos atletas dispensados, enquanto jovens, singram como seniores e quantos jovens aprovados no decurso da formação, fracassam no desporto sénior? Acreditem que são muitos. E sabem porquê? Porque, como em qualquer profissão, também na classe dos treinadores há (infelizmente) gente a liderar equipas que não deveria liderar porque, apesar do “canudo”, académico ou de treinador, não está capacitada, nem demonstra qualquer tipo de vocação para isso.




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