Fotografia:
Perguntas inquietantes

1Vivemos um período do ano em que são frequentes as primeiras comunhões, as profissões de fé, as celebrações do Crisma.Que continuidade têm na vida tais celebrações? Para quantos meninos a primeira comunhão é, simultaneamente, a última, ou uma das últimas?

Silva Araújo
31 Mai 2012

Dos que fazem a Profissão de Fé, quantos continuam a participar na Eucaristia dominical e ingressam nos grupos de jovens, conscientes da sua missão de jovens evangelizadores de outros jovens? Dos que receberam o Crisma, quantos se não envergonham, no dia a dia, da sua crença e se assumem como cristãos nos ambientes que frequentam?
Não quero exagerar, mas estou persuadido da existência de casos em que a Primeira Comunhão, a Profissão de Fé, a celebração do Crisma se fazem porque fica bem. Não por uma grande convicção dos próprios e de seus pais. Nem sempre constituem uma verdadeira e vivida etapa nessa caminhada de fé iniciada no dia do Batismo.
Todas as profissões de fé e celebrações do Crisma são preparadas com a celebração individual – com ou sem celebração penitencial – do Sacramento da Reconciliação?
 
2. Quando pedem à Igreja o Batismo para os filhos, os pais assumem o compromisso de os educarem religiosamente. Quantos, depois de o terem solicitado, são, de facto, os primeiros catequistas dos filhos? Em quantas famílias – que gostaría-mos fossem verdadeiras igrejas domésticas – se reza diariamente?
 
3. Na base de tudo está a família. Família que tem a origem no casamento e este, para os cristãos, é um sacramento que dá ao casal a graça necessária para testemunhar com a vida o amor de Deus para connosco. Sacramento que leva marido e mulher a procurarem o bem um do outro; a caminharem na vida de mãos dadas, lado a lado, ajudando-se a serem felizes; a constituírem uma comunidade de amor aberta à transmissão e ao crescimento da vida.
E como são preparados alguns dos casamentos celebrados religiosamente? Quantos pares de noivos frequentam as sessões dos chamados CPM – Centros de Preparação para o Matrimónio? O facilitismo não se terá introduzido em alguns destes CPM, reduzindo-os a um ou dois fins de semana, como que empacotando e compactando o conteúdo das várias sessões? Não será prejudicial eliminar o espaço de uma semana entre cada uma das sessões, ficando os noivos sem o aconselhável tempo para assimilarem as mensagens contidas nos testemunhos que recebem?
 
Na base de tudo, insisto, está a família. Mas sem famílias que sejam verdadeiras comunidades de amor; onde cada um seja aceite como é e se sinta respeitado e amado; onde cada um se saiba corresponsável pela felicidade de quantos vivem consigo; onde as pessoas sejam educadas no uso de uma correta escala de valores; onde a compreensão e o perdão mútuos sejam uma realidade, onde vamos parar?
Se na família se discute mais do que se conversa; se há mais gestos de violência do que de amabilidade; se são visíveis mais amuos do que sorrisos…
O menino fez a primeira Comunhão mas depois deve participar na Eucaristia dominical. Como, se não tem quem o acompanhe?
O menino fez a primeira Comunhão. Frequentou, para isso, a catequese. Mas a sua formação religiosa precisa de ter continuidade. Como, se, na escala de valores dos pais, não há tempo para a catequese porque esta vem depois do inglês, do ballet, do violino, da natação, do futebol, do andebol, do karaté, e de um conjunto de outras atividades?
 
4. Escrevo em dia de Pentecostes. Que o Espírito Santo nos ilumine, nos ajude com os seus dons para que, com Ele, renovemos a face da terra, começando por nos renovarmos nós mesmos. Mas para isso é necessário que Ele sopre forte sobre cada um de nós, os que na Igreja que todos somos têm maiores responsabilidades.
Os dados fornecidos pelo «Inquérito 2011 – Identidades Religiosas em Portugal: representações, valores e práticas», tornados públicos em 19 de abril, devem fazer-nos pensar muito seriamente. E isso de dizer que baixámos em quantidade, mas crescemos em qualidade, em minha opinião, não passa de desculpa que de forma alguma pode tranquilizar as consciências. É que estou persuadido de que se continua a procurar a quantidade – pelos vistos, sem êxito – com prejuízo da muito desejável qualidade.
Que o Espírito Santo nos ajude a resistir à tentação do espetáculo pelo espetáculo; à tentação do culto da imagem e do parecer sobre o ser; à tentação de confundir evangelização com agitação e com grandes concentrações. Que Ele nos ajude a contribuir para a formação de comunidades autenticamente cristãs.




Notícias relacionadas


Scroll Up