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O urso e o amador de jardins

Caiu-nos de surpresa na tijela da sopa (embora não tenha sido tanta surpresa assim, valha-nos a verdade…) a rescisão do contrato de Leonardo Jardim com o Sp. Braga. Como as “razões” dessa rescisão permanecem um tanto ou quanto “obscuras” – ainda que tenham vindo à tona algumas de interessante relevância… –, os adeptos braguistas não falam de outra coisa. Que terá acontecido “de facto”?, perguntam eles, a meia-voz…

Carlos Manuel Ruela Santos
31 Mai 2012

Ora, tenho para mim, no entanto, que esse intenso falatório (e digo-o em abono da verdade) não constitui grande novidade! A bem dizer, já no século XVI o poeta francês Jean de La Fontaine (1621-1695) adivinhou, nas suas “Fábulas”, o que iria acontecer por cá nos tempos que agora correm… Não acredita o leitor nisto que digo? Ora leia então se é ou não verdade o que escreveu La Fontaine sobre o assunto – e, depois, conclua se tenho ou não motivos para crer que o poeta de há 400 anos era também um “adivinho” destas coisas do futebol moderno…
Reza assim a “fábula adivinhatória” de La Fontaine, numa tradução de José Inácio de Araújo:

O urso e o amador de jardins

Em um bosque solitário
De funda mudez sombria,
Por lei do destino vário
Oculto um urso vivia.

Podia perder, coitado,
O juízo; vem dele a míngua
Ao que se vê isolado
Sem ter com quem dar à língua.

É muito bom o falar,
O calar-se inda é melhor.
Dos sistemas no abusar
É que se encontra o pior.

Como no bosque recurso
P’ra conversar não achava,
Aborreceu-se o nosso urso
Da vida que ali levava.

E enquanto em melancolias
Ia consumindo o alento,
Não longe passava os dias
Um velho em igual tormento.

O velho amava os jardins
Que a capricho Flora esmalta:
Belo emprego, mas dos ruins
Quando um bom amigo falta.

E cansado de viver
Com gente que muda nasce,
Meteu-se a caminho, a ver
Se achava com quem falasse.

Ora, quando o velho ia
Saindo para a jornada,
Do bosque o urso saía
Levando a mesma fisgada.
Encontraram-se – era cedo –
E o velho, como é de crer,
Teve do urso grande medo
Como teria qualquer.

Mas por fim, julgando-o manso,
Com ele simpatizou:
“Queres jantar com descanso
No meu lar?” Ele aceitou.

Comeram; de alma no centro
Nenhum receou perigos;
E ficam portas adentro
Vivendo os dois como amigos.

O velho as flores regava,
Com que muito se entretinha;
O urso saía, caçava
E abastecia a cozinha.

E tanto afecto exibia,
Embora em maneiras toscas,
Que quando o velho dormia
Até lhe enxotava as moscas.

Mas um moscardo maldito
Apareceu, tão ruim,
Que o urso se viu aflito
P’ra conseguir o seu fim;

E, de raiva furioso,
Agarra num matacão,
E esborrachou o teimoso…
Sobre a tola do patrão!…

A mil iguais fulanejos
Lance a Parca a dura foice:
Querem encher-nos de beijos,
E o que dão, por fim, é coice!




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