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Um olhar em redor

Creio que foi André Gide, famoso escritor francês e Prémio Nobel de 1947, quem afirmou um dia: “O número de disparates que uma pessoa inteligente pode dizer ao longo de um dia é inacreditável. Eu próprio diria tantos como qualquer deles se não me calasse muitas vezes”.

Joaquim Serafim Rodrigues
28 Mai 2012

Esta afirmação, profunda e sensata, deveria ser tida em conta por todos aqueles que, utilizando a força prodigiosa da imprensa, nomeadamente as colunas de um jornal, emitem opiniões, conceitos ou, muito simplesmente, defendem pontos de vista. Não usando essa prudência, essa contenção, os habituais detentores de uma dessas colunas incorrem num sério risco: o de acabarem, mais tarde ou mais cedo, por defraudar quem os lê, não justificando, assim, quer as expetativas criadas em torno dos seus escritos quer, sobretudo, o espaço que, por vezes, tão generosamente lhes é concedido para o efeito.
Lamentavelmente, porém, nos atribulados tempos que correm, e como nunca se viu, passou-
-se de um extremo ao outro: desde a censura que tudo passava a “pente fino” até ao uso imoderado desta liberdade atual, que permite, inclusive, que possa ser ultrajado o mais Alto Magistrado da Nação, qualquer que ele seja, bem como qualquer outra figura pública ou político no desempenho do seu cargo legitimamente eleito pelo povo, sem que nada aconteça ao autor de tais insultos!
Escrevinhadores há, contudo, jornalistas ou não, comentadores disto e daquilo, críticos por demais tendenciosos, sem moral sequer para se manterem calados. Resta-nos, pois, suportá-los, enquanto a troika os não incluir nas brutais medidas de austeridade que nos impôs a todos (embora não por igual nem proporcionalmente, ao menos) já que para tal necessário seria existir um sistema de Justiça fiável – o que não temos, ou seja, e não menos importante, uma grande infelicidade a juntar a muitas outras.
Retomando o fio do meu pensamento inicial, direi que, em se tratando, então, da imprensa dita local ou, num sentido mais amplo, regional, o caso é muito mais sério visto que, ao invés do grande jornal diário de índole nacional, “pedaço de vida palpitante mas de duração efémera”, conforme alguém já lhe chamou (no dia imediato já poucos se lembram daquilo que leram, assoberbados com novas notícias), aquela outra imprensa, dizia, tem as suas peculiaridades, move-
-se num espaço muito seu, feito à custa de muita entrega. Colaborar nela, na medida dos recursos de cada um e tendo em conta os limites da sua competência, constitui sempre um motivo de orgulho e, em certos casos, até, uma paixão.
Constituem, também, estes periódicos regionais, no que toca aos seus leitores ausentes do seu meio, um poderoso elo de ligação à sua terra, à região que lhes é familiar, suavizando-lhes, de algum modo, as agruras do exílio e ajudando-os, também, a suportarem melhor as inevitáveis saudades.
Escapam, assim, estas publicações à “morte” diária e mais ou menos inglória, pois gostamos de as ter à mão, olhando os seus exemplares com algum enlevo, os quais conservamos e consultamos amiudadas vezes.
Por isso, constituiria sempre uma nota desagradável qualquer tipo de prosa imoderada, agreste ou dúbia, visando grosseiramente alguém, já que a verdadeira liberdade consiste em cada um poder fazer ou dizer aquilo que deve e não tudo aquilo que quer. Entendidos? Suponho que sim.




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