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A longevidade e a economia

A Segurança Social anda aflita porque tem de atender às reformas e cuidados de saúde dos mais velhos, daqueles que teimam em viver. E o caso não é para menos. As economias dos países não estavam preparadas para enfrentar a longevidade. As pessoas vivem cada vez mais tempo devido a cuidados de saúde de todo o tipo que vão desde a prevenção aos transplantes, a uma melhor alimentação e, principalmente, à ciência gerontológica.

Paulo Fafe
28 Mai 2012

No tempo de Salazar, os funcionários públicos aposentavam-se aos setenta anos. Como normalmente morriam antes de lá chegar, e mesmo quando chegados poucos anos usufruíam da aposentadoria, a Segurança Social capitalizava mais do que gastava. Agora as pessoas aposentam–se mais novas, vivem, como dissemos, mais tempo, auferem reformas, algumas de miséria, mas outras, altas ou muito altas e a Segurança Social está na penúria, a curto prazo na bancarrota, segundo apontam algumas previsões.
É do conhecimento geral que cada trabalhador ativo desconta para cada aposentado. Este princípio começa a estar desmentido porque os ativos são cada vez menos e os inativos cada vez mais. Quer isto dizer que a noção de sociedade, em futuro, se esboça no próprio cerne da noção desta longevidade de vida. Havia um antigo organismo social onde os velhos eram considerados experiência de vida e sabedoria experimental. Eram respeitados e venerados pelo seu passado e o que isso representava de substrato educativo para os mais novos. Se, para o sistema económico português, a longevidade se está a tornar um peso económico e financeiro com o qual não sabe lidar, torna-se imperioso que o aprenda depressa a fazer porque cada vez mais os velhos vão ser mais velhos. A medicina vai saber prolongar a vida. Talvez a mítica barreira dos cem anos deixe de ser uma exceção e passe a ser uma regra. Ao mesmo tempo que a química e a ciência se embrenham por “baixo” no prolongamento da vida, a complexidade económica e financeira tem de responder “por cima” ao problema da longevidade.
O que é preciso é consciencializarem-se que vida prolongada e sociedade vão ter coexistência real. E se assim é, é porque uma e outra vão ter de ter um fundamento organizacional comum. Como costuma  dizer-
-se, estão condenadas a viver juntas, sem que uma possa prescindir da outra. Nos tempos que correm, esta longevidade, em vez de ser um peso morto na sociedade, é um complemento, pelo menos no que toca à família. Por acaso, não são os avós quem cuida dos netos, substituindo os pais? Que os pais poupam com isso os dinheiros dos infantários? Por acaso, não são os dinheiros dos avós que acodem às necessidades dos pais quando estão em apuros financeiros? Por acaso, não é à casa dos pais que regressam dos divórcios? Por acaso, não é com o dinheiro dos pais que acodem sempre que não podem pagar as prestações?
Estou em crer que os avós são a almofada que amortece o choque social dos que, sem eira nem beira, vivem e se sentem indignados. Mas para se poder articular este fenómeno novo é necessário rasgar os paradigmas da sociedade velha, sociedade que olha ainda para a longevidade como um fardo que alguns suportam com custo, outros com suspiros de resignação e outros com amor. Vamos à antropossociologia buscar os fundamentos  e as complexidades dos problemas económicos e financeiros causados pela longevidade, uma vez que a sociedade terá que a assumir como natural.




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