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O sucesso da economia chinesa: Um caso de smart power

Tivemos conhecimento, este mês, de que a República Popular da China apresentou um crescimento económico de 11,9% no decorrer do primeiro trimestre deste ano. Com um número de países ainda a enfrentar algumas das consequências da enorme crise económica e financeira mundial, esta notícia acaba por ter ainda mais destaque, apanhando de surpresa aqueles mais desatentos à realidade do sistema e da economia internacionais.

N/D
26 Abr 2010

Para nós, portugueses, este anúncio terá ainda mais interesse, se considerarmos as recentes notícias sobre a realidade da economia de um dos nossos parceiros europeus, a Grécia, que enfrenta uma situação económica séria e grave, e, por outro lado, os avisos lançados por alguns especialistas, como é o caso de Simon Johnson, antigo economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que alerta para o risco de Portugal atingir um ponto de falência económica.

O fenómeno de crescimento económico da China tem sido objecto de estudo por parte de inúmeros autores e especialistas, sem no entanto existir uma teoria consensual sobre os factores impulsionadores e de sucesso desta realidade. Trata-se, apesar de tudo, de um fenómeno facilmente observável pelo cidadão comum, bastando constatar o número de lojas de proprietários chineses que existem, hoje em dia, em inúmeros países. De facto, no nosso país, facilmente encontramos lojas de proprietários chineses, não só nas grandes cidades, como também em pequenas vilas e localidades do interior, demonstrando bem a capacidade de expansão da sua população.

Esta condição da economia chinesa não é nova, destacando-se, no entanto, pela sua elevada taxa de crescimento, num momento em que a maioria dos países está ainda na “ressaca” da crise mundial que assolou o Mundo, e que ainda se faz sentir. Por outro lado, este crescimento denota algumas particularidades que merecem uma análise mais atenta. Desde logo, não deixa de ser impressionante a capacidade de absorção de tragédias, por parte da China, não impedindo o país de apresentar este tipo de crescimento económico. Relembremos o sismo de Sichuan, em Maio de 2008, que causou a morte a mais de 80 mil pessoas, e o sismo ocorrido este mês, estando contabilizadas, pelo menos, cerca de 2 mil vítimas mortais. Estas tragédias, tivessem ocorrido em territórios de uma dimensão muito menor, como aconteceu, de resto, no Haiti, teriam consequências nefastas no crescimento económico do país. No entanto, pese embora a dimensão das tragédias que ocorreram no território chinês, as mesmas acabaram por não causar consequências negativas significativas no rumo e crescimento económico do país.

Outro factor interessante, na minha opinião, refere-se à estratégia de investimento do próprio Estado chinês e que tem, no mercado africano, um dos principais alvos. De resto, este investimento não se observa apenas na internacionalização de empresas chinesas para Estados africanos, mas, inclusivamente, na instalação de embaixadas chinesas nos diversos Estados de África. Aliás, contabilizam-se cerca de 45 embaixadas da China só em África, demonstrando bem o interesse do governo de Pequim naquele continente. Ao mesmo tempo, são empresas chinesas, utilizando, acima de tudo, trabalhadores de nacionalidade chinesa, quem está à frente da maioria dos grandes projectos imobiliários de África.

Como já referi, um dos factores que poderá contribuir para estas particularidades que caracterizam o crescimento económico monstruoso da China é a sua dimensão geográfica. No entanto, facilmente podemos associar a este, um outro factor que permite esta expansão e diáspora da população chinesa para vários pontos do planeta, a sua dimensão demográfica. Aliás, a China apresenta a maior população do mundo, cerca de 1 300 milhões de habitantes. Esta característica apresenta-se, a meu ver, como um verdadeiro factor de projecção de poder do Estado. A conjugação destes dois aspectos, a dimensão geográfica e demográfica do país, revelam-se demasiadamente importantes, colocando a China ao lado de outros Estados que são ou se estão a tornar em grandes potências mundiais, como são os casos dos Estados Unidos, a Rússia, a Índia ou o Brasil.

Da mesma forma, estes dois factores, associados a uma mão-de-obra barata e a um capitalismo de Estado, são aspectos fundamentais que permitem e explicam, a meu ver, este crescimento económico que a China apresenta. De resto, a um patamar semelhante temos outro dos países asiáticos, a Índia, com elevadas dimensões territoriais e demográficas, onde o papel do Estado é ainda preponderante, apesar de se tratar de uma democracia, e onde a mão-de-obra é muito barata, possibilitando a exploração contínua dos trabalhadores e, inclusivamente, das crianças. A capacidade da China em conjugar a sua projecção de poder, através da sua dimensão territorial e demográfica, com a sua habilidade diplomática, através da instalação e multiplicação de embaixadas pelos diversos países, aliada ao aproveitamento das suas vantagens comparativas, reprováveis ou não, representam o segredo que lhes permite alcançar os seus sucessos e objectivos, podendo representar um verdadeiro exemplo de smart power

Obviamente, deveremos denunciar, de forma continuada, a exploração laboral e infantil a que muitos dos cidadãos deste país estão sujeitos. Esta realidade é, de resto, constantemente criticada pela comunidade internacional, não sendo alvo de uma acção mais assertiva e objectiva, exactamente pelo poder que a China detêm. Não nos deveremos esquecer que a China é um dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, possuindo, portanto, o direito de veto, que, por sua vez, condiciona qualquer proposta que vise resolver ou clarificar estas questões sobre a violação dos direitos humanos no país. 
 
 [Publicado no DM de 27.04.2010]




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