Fotografia:
O regresso da Inquisição?

A forma acintosamente provocatória como se tem tratado, na comunicação social, os casos de pedofilia atribuídos a padres, para daí deduzir uma acusação genérica contra a credibilidade da Igreja Católica e contra a tradição de celibato dos padres, faz-me lembrar o regresso do espírito de fanatismo sádico da Inquisição em que a multidão se excitava com o cheiro de carne viva a arder, no meio de labaredas e gritos.

N/D
22 Abr 2010

Perdeu-se a noção de bom senso, de justiça, de verdade. Caiu-se na exaltação das emoções negativas em que as calúnias se tornam verdades mesmo antes de se saber se o eram. Só falta gritar que sejam linchados os eventuais culpados sem antes saber se realmente o são e sem se esperar que se faça justiça de uma forma objectiva e serena. Apesar de estar convencido que o abuso da pedofilia é um doloroso atentado à dignidade humana das vítimas, não posso concordar com este clima doentio que se tem criado. Se há culpados, certamente que eles têm de assumir as suas responsabilidades. Mas, uma vez cometido o erro, o importante não é queimar o culpado na fogueira pública das paixões de vingança incendiadas, mas procurar evitar que o erro se repita e que se atenuem as consequências na pessoa abusada. Por ter sido culpado, o agressor não deixa de continuar a ser pessoa, embora tenha caído na lama dos seus erros e tenha ofendido um inocente.

 

1. A pedofilia é um fenómeno antigo e triste que envergonha a humanidade, porque nela se explora, a título de satisfação sexual, que só existirá da parte do abusador, o corpo e os sentimentos mais íntimos de uma vítima inocente. Mas, mesmo nestes casos tristes, é preciso conhecer antes a realidade para depois ser capaz de a compreender e de a julgar. Imagino como se terão sentido humilhados tantos padres (e serão 99,99%) a quem nunca lhes passou sequer pela cabeça cometer um atentado destes contra a pureza e a inocência de uma criança e que têm por elas um respeito e um carinho paternal que ficará na sua memória como algo de muito estimável. Não é justa a generalização que se tem feito. Não é uma árvore que faz a floresta.

 

2. Na pedofilia há dois lados a considerar: o lado da criança abusada e o lado do adulto abusador. Sabe-se que as crianças em situação de dependência afectiva são as mais vulneráveis; mas, sejam quais forem as vítimas, todas elas devem ser credoras de adequada ajuda para recuperar do seu sofrimento psíquico. Da parte do agressor, não há uma causa unívoca para a pedofilia. O perfil do abusador é muito polimorfo. Tanto acontece com o sujeito citadino como com o sujeito rural. Em termos de antecedentes do seu desenvolvimento pessoal, admite-se que, na história pessoal do pedófilo haja marcas de infelicidade (daí que, por exemplo, crianças que foram abusadas possam tender a ser futuros abusadores se não forem devidamente apoiadas nos traumas que sofreram). Do ponto de vista social, a tendência é para nível sócio-económico baixo. Do ponto de vista psíquico, a maior parte terá a ver com algum tipo de problemas psiquiátricos, alcoólicos crónicos incluídos. Do ponto de vista da maturidade sexual e afectiva, estes sujeitos são, de modo geral, pessoas imaturas. Do ponto de vista da satisfação da sua vida sexual, estes sujeitos têm, muitas vezes e por razões várias, uma vida sexual carente ou anormal. Quanto ao nível de perversidade, não se pode dizer que eles sejam propriamente sujeitos perversos, mas que são afectados por perturbações heterogéneas de personalidade. E que têm tendência para ser recidivos.

 

3. Ao focar obsessivamente o problema de pedofilia nos padres, a comunicação social tem querido obviamente descredibilizar a acção da Igreja, insinuando que os padres, por serem celibatários, são necessariamente predispostos para a pedofilia. Compreende-se que um único caso já seria demais para quem deve ser exemplo de vida; mas, há nesta associação entre celibato e pedofilia um manifesto exagero que não respeita nem a lógica nem a ciência. Em primeiro lugar, do ponto de vista estatístico, não é verdade que a pedofilia seja assim tão cometida por padres. Sabe-se que 90% dos casos de pedofilia são cometidos nas famílias. E, que, por exemplo, dos casos registados na Alemanha entre 1995- 2009, apenas 0,1% foram atribuídos a clérigos, sendo que, dessa percentagem, os clérigos podem ser de várias confissões, não apenas da Igreja Católica. E, nas estatísticas dos Estados Unidos, em 2002, para além das acusações a clérigos terem caído para apenas 0,06% de casos registados, também se diz que a pedofilia acontece 2 a 10 vezes mais com clérigos de outras confissões do que com os padres da Igreja Católica, não obstante eles serem ou poderem ser casados. Por aqui se vê que, estatisticamente, não é legítimo associar o celibato à pedofilia. Em Portugal, a Conferência Episcopal acaba de informar que não tem conhecimento de nenhum caso de pedofilia cometido por padres.

 

4. Não só do ponto de vista estatístico não é possível fazer qualquer associação entre a  pedofilia e o celibato dos padres, como também o não é do ponto de vista da comparação do perfil de personalidade. O único aspecto a que têm feito referência é à carência de vida sexual dos padres. É certo que se tem verificado que há pedófilos em que aparece associada uma carência de vida sexual; mas essa não é uma característica do perfil psicológico do pedófilo. Pode ser, quando muito, um facto conjuntural. O pedófilo não se define por ser carente de vida sexual, mas por preferir crianças como objecto e parceiro sexual. A procura de uma criança como parceiro sexual indicia mais imaturidade sexual e afectiva do que carência de vida sexual. Pode não ter carência de visa sexual e continuar a procurar a criança como pedófilo. Ora, essa característica não tem nada a ver com o perfil psicológico do padre, que assumiu não ter vida sexual por opção de dedicação aos outros.

Quanto ao facto de uma grande parte das vítimas de pedofilia serem do mesmo sexo do abusador, pode indiciar uma tendência homossexual associada, embora, só por si, possa não ser prova suficiente para o demonstrar. 
 

[Texto publicado, aqui com algumas alterações, no DM de 16.04.2010] 




Notícias relacionadas


Scroll Up