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Nas bodas sacerdotais de diamante

No dia em que os restos mortais vão a sepultar na terra da sua naturalidade (Nogueira, Viana do Castelo), queria fazer memória agradecida de um meu professor do Seminário.

N/D
7 Nov 2009

Adiada repetidamente, à espera de melhor oportunidade, tudo estava marcado para o próximo dia 30, dia de Santo André, na Casa Sacerdotal de Braga, para celebrar, em família alargada, os 75 anos de ordenação sacerdotal daquele que foi professor de História Eclesiástica do Seminário de Teologia de Braga.
O Pai do Amor misericordioso quis chamá-lo para as bodas eternas no dia litúrgico em que celebramos São Nuno de Santa Maria, de que o falecido era grande admirador e devoto.
Há que dizê-lo sem eufemismos: o Doutor Arieiro não colhia a estima da generalidade dos seus alunos, e muito menos de quantos foram alunos de Teologia na época em que foi prefeito de estudos. Eram tempos em que quem mais sofria talvez fossem mesmo os superiores do Seminário, pois não há pior martírio do que ser educado num sistema de valores que deixa a dignidade da pessoa um pouco para segundo lugar, pelo que os outros serão sempre mais alunos «sem história concreta e pessoal» a educar de acordo com certas normas e preceitos, do que «filhos bem amados» a quem muito se ama e estima e, por isso mesmo, se lhes incute, com suavidade e firmeza – uma dupla de dificílima conjugação – uma disciplina, um método de estudo, uma vivência litúrgica e de vida de oração pessoal, que são os melhores alicerces para responder positivamente aos desafios da vida, como homem de corpo inteiro. E então, se for o caso, poderá vir a ser também um sacerdote de eleição.
Pessoalmente, não tenho razões de queixa. Pelo contrário, várias foram as manifestações de estima e apreço que dele recebi. E jamais esquecerei a solidariedade que manifestou para com meus tios sacerdotes e eu próprio, em horas bem difíceis da vivência eclesial em Braga, nos anos 70. Manifestações sempre vivas, até aos últimos dias da sua vida entre nós. Era leitor entusiasta dos meus escritos e reagiu, com garbo e certa cumplicidade, ao livro “Encontro no Caminho”, de 1990, em que se contam algumas das peripécias da vida do Seminário do Curso de 1953-1965.
No dia em que os restos mortais vão a sepultar na terra da sua naturalidade (Nogueira, Viana do Castelo), queria fazer memória agradecida de um meu professor do Seminário. A ele devo, entre outras coisas, uma leitura mais atenta dos Actos dos Apóstolos, no primeiro ano de Teologia, na sua disciplina, e só há três anos pude preencher um sonho que desde então povoava o meu espírito: visitar Antioquia. O Ano Paulino teve para mim outro sabor, bem como o estudo mais aturado dos escritos do Apóstolo dos gentios e do mundo inteiro que, em grupo alargado, venho fazendo.
Recordo, ainda, como ele se desmultiplicava para acorrer solícito aos pedidos dos colegas sacerdotes para a pregação e a celebração do sacramento da Reconciliação nas suas paróquias. Nesse aspecto, a memória que deixa aos romeiros de São Bento da Porta Aberta é a de um sacerdote sempre disponível para atender todos quantos, gozosamente, queriam celebrar o Perdão do Pai de todas as misericórdias.
Na Casa Sacerdotal, deixou uma grande lição: não se lamentar com os achaques da doença, que também teve que suportar. A transformação num homem sereno e, à sua maneira, feliz, foi uma das marcas que dele recebi e que agradeço sinceramente. Bem como a sua permanente disponibilidade para estar em oração. E agradeço, ainda, que, apesar de todo o passado, tenha aprendido a jogar cartas e nunca se tenha zangado com os companheiros e os leigos amigos com quem partilhava esses momentos que, além do mais, serviam para oxigenar o cérebro. Quanto de bom e de belo se pode aprender no entardecer da vida! E que lições, sobretudo para os mais novos!
Podia não ter outros elementos de juízo, mas a maneira como soube reagir às debilidades da idade e da doença, e como soube receber as orientações que lhe eram fornecidas para uma melhor qualidade de vida no finar dos seus dias, chegam para exprimir gratidão ao Senhor por estas importantíssimas lições. Se as soubermos receber, tornamo-nos mais e melhores homens. E, consequentemente, mais e melhores sacerdotes.
Em 22 de Outubro, dia do Padroeiro da Diocese e da Casa Sacerdotal, revi-o com especial carinho e afecto. Tais sentimentos exprimo no dia daquele que também é meu patrono e em que o Pai o veio chamar para as Bodas do Cordeiro, como belamente nos diz o Apocalipse. A revelação tornou-se epifania, júbilo, amor e gratidão para todo o sempre. É esta a sorte ditosa dos justos que morrem no Senhor.
 
[Publicado no DM de 07.11.2009]




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