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A capela, a confissão, o conselho… a história

Confessava todos os dias. Dirigia espiritualmente muitos devotos e devotas. Sempre com respeito e no silêncio, com um proémio e uma conclusão que, invariavelmente, passavam pela capela, lugar da sua atenção predilecta. Respeitava todos os bens, não só o papel mas também a gasolina, quando desligava o automóvel nas descidas e nem se importava que houvesse alguma piada.

N/D
7 Nov 2009

Chegou quase aos cem anos entre nós. Ao longo do centenário foi-se tornando um dos grandes pilares das nossas Igrejas locais, quer em Braga, arquidiocese, quer em Viana, comunidade local pela qual rezou, trabalhou, foi construindo e na qual entrega o seu corpo à terra donde viera.
Rezou imenso por nós, connosco e para nós. Recorde-se o lugar do coro da capela do Seminário Conciliar, na Rua de Santa Margarida, donde o víamos sair tantas vezes ao longo da nossa formação e recorde-se também a sua passagem assídua da sala de visitas para a capela, no primeiro andar, junto à porta principal. Rezou muito e rezou com muitos.
Trabalhou incansavelmente, pois ao Alto Minho pertencia; clérigo de prestígio e mestre insigne no âmbito da História (e da Teologia) foi promotor de uma criação difícil, a da diocese de Viana do Castelo. Soube levar, com outros, o assunto pelas boas vias romanas e, depois, desde 1977, há já 32 anos, nunca deixou de honrar aquela “filha de Braga” que hoje caminha com adultez jovem. Não a deixou de parte, mas entregou-lhe mesmo sinais eloquentes, para hoje e para amanhã, de que a cultura é indispensável para ser Igreja-comunhão. Sou testemunha de uma boa parte da sua biblioteca que hoje está em Viana e que, como acredito, serve as gerações do presente e servirá o futuro.
Para além da oração, da acção silenciosa e bem estruturada, foi um valoroso formador do espírito em muitos de nós. Não se afastou do seu tempo e soube jogar com as regras pedagógicas que eram muito mais centradas na disciplina, no saber e na obediência. Leccionando História da Igreja, apresentava os acontecimentos, as suas causas e as suas consequências. No tempo, falo dos anos 70, usava a pedagogia da voz baixa, do discurso rápido, da repetição de ideias mestras. Os alunos, com parcos apontamentos, tinham de estudar os compêndios, sempre os mais actuais. Lembro os quatro volumes sobre o ateísmo contemporâneo, que ainda hoje esfolheio, editados pela Cristiandad de Madrid. Ouvia-se, respeitava-se e logo se liam páginas em catadupa para estar pronto a dar delas uma síntese. Na aula seguinte, calar-se significava não ter estudado. Na disciplina, isto podia ser tido em conta.  
Formavam-se homens de estrutura, com horários e pontualidade, que aprendiam a conjugar o recreio com o dever quotidiano, a oração com o estudo, e, na altura, também se ensaiavam peças de teatro, também se dava conta à comunidade das espertezas dos seminaristas. Creio que foi assim que se foi formando uma Faculdade de Teologia que hoje prossegue em Braga a sua missão e da qual nos orgulhamos.
Lembro, com emoção, as idas ao seu gabinete na residência de Santa Margarida. Tinha em mim muita confiança, até ao ponto de me entregar centenas de livros para o Seminário de Viana. Ia dando o que sentia que já não utilizaria, apesar de continuar a elaborar recensões e resenhas para a revista Theologica. Era admirável vê-lo a escrever
à máquina, textos apertados, com muito respeito pelo papel e, já mais tarde, pedindo que lesse o que estava escrito. Lembro a recensão da minha tese de doutoramento. Conheci-o também nesta fase, cheio de cuidado por Viana do Castelo e cuidadoso para que a comunidade vianense cumprisse o seu dever e desse provas de correspondência sensata ao desígnio que nela se instaurou desde 1977.
Confessava todos os dias. Dirigia espiritualmente muitos devotos e devotas. Sempre com respeito e no silêncio, com um proémio e uma conclusão que, invariavelmente, passavam pela capela, lugar da sua atenção predilecta. Respeitava todos os bens, não só o papel mas também a gasolina, quando desligava o automóvel nas descidas e nem se importava que houvesse alguma piada.
Era, de facto, um bom conselheiro. Quantos anos passou o fim-de-semana em São Bento da Porta Aberta, ouvindo e aconselhando, absolvendo e rezando. Depois, regressava à sua casa, o Seminário, onde gastava a vida ao nosso serviço. A certa altura, lembro-me de alguma tristeza no seu rosto. Nem sempre as coisas eram do seu agrado. Já se encontrava suspenso ao Mistério que sempre servira, Deus! Lembro-me ainda da bengala, já na última década da Rua de Santa Margarida. Não se esquecia dela para respeitar a saúde, como dom de Deus e fê-lo até ao fim, quase aos 99 anos de idade.
Foi chamado no dia de Santo Nuno de Santa Maria, ele que foi também um valoroso soldado de Cristo. Uma das suas lições de História dizia respeito ao conhecimento do inimigo. «Se sabemos quem é, podemos combater com mais valentia» (falava assim a propósito do ateísmo). «Quando não se sabe, pode-se ser apanhado. É terrível». 
O Senhor deu-lhe uma longa vida entre nós, recebemos dele valiosos testemunhos de vida, aprendemos com ele a entregar o que temos no tempo devido. Não haverá desbarato.
Senhor Dr. Arieiro, meu estimado professor e conselheiro, que o Senhor o recompense por tudo o que fez por tanta gente, também por mim. É na Semana da Diocese de Viana do Castelo, aos 32 anos de vida diocesana, que choramos a sua morte e celebramos a Vida para sempre, em Deus. Bem-haja pelo grande legado que nos deixa!

[Publicado no DM de 07.11.2009]




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