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Ardeu uma enorme biblioteca

Partiste, sem nem sequer dizer que te ias ausentar. Ficamos todos sem ti, como mendigos a perguntar o que aconteceu. Ninguém sabe responder, a não ser que escutemos aquela voz que muitas vezes saía de ti: «Eu estou bem. Não te preocupes». É a única resposta possível. Não vem de nós, mas continua a vir de ti e de Quem está em ti, além de ti, porque é eterno e te recebeu.

N/D
27 Out 2009

Partiste há um mês e as saudades sentem-se nas ruas da cidade, por onde vamos e nos falam do «teu amigo». Descobri, há muito, que havia entre nós uma grande cumplicidade desde os onze anos, naquele tempo de pré-adolescentes onde, no Seminário de Nossa Senhora da Conceição, nos olhávamos, brincávamos e abríamos as janelas do futuro. A saudade aparece recuada no tempo, quarenta anos antes, quando os pais velavam por nós e nos aconchegavam com o enxoval que transportavam à cabeça como sinal de muito amor por nós, abrindo o futuro no qual acreditavam. A cidade de Braga chora por ti, nos tempos em que íamos a passear lá para os lados do “estádio” e brincávamos entre nós, sob a vigilância de alguns com quem depois fizemos caminho. Era já mais tarde, nas descobertas das primeiras aventuras, para Itália, para a Suíça, para Espanha. Com uns e com outros. Foram os tempos da nossa juventude. E parece que enquanto viver, farei memória de ti.
Partiste. Foi bonito o tempo que Deus nos deu; anos e anos, sempre para melhor, mas sem saber o que poderia acontecer. A tua partida, precoce e a meu ver desatenta da nossa parte, deixa a questão da liberdade encurralada na garganta. Falámos tantas vezes em hipóteses para ti, vindas muitas delas de pessoas que gostam de ti, mas de quem a palavra nada te dizia. E tu fugias, sempre com aquela certeza para nós: «Eu estou bem. Não te preocupes». Agora, a liberdade está atravessada na garganta. Lembro que falamos muitas vezes de «servo arbítrio» fazendo falar Lutero, que revisitávamos com frequência. Foste sempre um católico de mãos abertas e o teu ecumenismo não era de gabinete, mas de estrada, de ousadia. Os cristãos caminhavam contigo e eram o teu motivo de acção. Vivias em função deles, prendia-te a atenção a todos os homens de boa vontade. Partiste, sem dizer a ninguém e talvez sem pensares que poderia ser assim. Estavas preso à saúde espiritual, tinhas um laço indestrutível com o além, julgavas mesmo que tinhas ultrapassado a idade limite («Jesus morreu aos 33 anos», dizias). Estás em paz, mas ficamos nós com a liberdade às costas. Ao hospital, ias visitar os outros, dar-lhes conforto e tu, necessitado, nunca era para ti aquele lugar. Partiste, com muita saúde espiritual, repleto de harmonia com o teu Deus e com os que deixaste perplexos. Do que não fizemos, tem piedade e, olhando o nosso Deus, fala-lhe de nós.
Enquanto escrevo, há um sentimento que apazigua a minha vida. Tenho de te escrever mais frequentemente. O meu luto passará pela tinta preta agarrada ao papel branco. Ajudado por outros, farei a tua memória. Quantos textos me deixaste, publicados e sem publicar; partilhavas tudo, mesmo os livros que trazias do estrangeiro. Trazias para mim, para os nossos colegas professores, para os teus amigos. Eras uma biblioteca que passeava na cidade, aberta, bem eloquente e sempre amiga para fazer o bem. Até aos pedintes que te estendiam as mãos, davas do que não tinhas. Lembras-te de trazer a “gorjeta” de alguns dos nossos almoços que depois entregavas ao primeiro que te abeirava na Rua do Souto? Eras assim, franco, aberto, cheio de benevolência, entregue às surpresas da vida, dia a dia, sem projectos de vanglória, mas sim o de viver como Cristo. Quando conversávamos, a tua biblioteca abria os ficheiros: eras uma enciclopédia, com datas, com nomes, com pensamento. Fugias sempre da mediocridade.
Quando te fui ver no teu apartamento, há um mês, não pude ver-te. De facto, já estavas do «outro lado do lago», como gostavas de dizer ao comentar a viagem de Jesus, na travessia de Tiberíades. A travessia tinha sido definitiva para ti. Ao teu irmão, debulhados os dois em lágrimas, disse palavras de paz, com esta referência: «Ardeu uma biblioteca». Quantas vezes me indicaste bibliografias que tinhas lido em poucas horas e eu não te agradecia o bastante. Aligeiraste sempre o meu trabalho e sabias que eu estava ao teu lado, sobretudo quando as curvas da vida eram mais delicadas. Guardarei em mim, no resto da minha vida, as tuas lições não pagas, as tuas aberturas de espírito, a tua amizade desinteressada, só por amor. Com a tua partida, entendo melhor a vida e espero poder agradecer-te enquanto gostar de escrever.
Dizias-me muitas vezes, quando abordávamos temas mais espinhosos: «Not against you, but with you». Muito obrigado. Entendo que sempre o fizeste por amor, o que torna a comunhão muito intensa, «with you». No dia 25 de Setembro, a minha agenda e a minha memória anotou o nosso último almoço. Foi na “Buraca”, onde o nosso comum amigo nos serviu um polvo cozido muito bom. Depois, passeaste comigo até ao arco da Porta Nova. Tínhamos marcado o novo encontro para o dia 2 de Outubro, indo a Coimbra, à Universidade. E tudo parou no dia 1 de Outubro, em festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das Missões. Despedimo-nos junto ao arco da Porta Nova (Braga, que tanto amavas). Voltaremos a ver-nos no Arco da Porta Nova, na Jerusalém Celeste, onde estás para nos receber.
Dr. Esteves, muito obrigado pela tua vida!




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