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Peregrino da Esperança e da Divina Misericórdia

Tendo sido o acontecimento mais mediatizado da história, há como que um bloqueio quando queremos escrever algo sobre João Paulo II. Todavia, gostaríamos de registar 3 factos. Um para o corrigir, outro para o dar a conhecer e outro para o realçar.

N/D
13 Abr 2005

Gostaria de corrigir a interpretação errónea que invadiu as redacções dos meios de comunicação social e de que não se deram conta. É a propalada informação de que, à luz do testamento de João Paulo II, ele pensou renunciar no ano 2000.
De facto, o que o saudoso papa nos quis comunicar é que, tendo chegado ao ano 2000 e tendo cumprido o desígnio que o seu amigo e mentor, cardeal Wisinsky, lhe tinha confiado: conduzir a Igreja até ao novo milénio, o que fez com êxito e assinalou com o Jubileu, lhe apetecia dizer com o velhinho Simeão (Lc, 2, 29-32) depois de ter tido nas suas mãos o Messias e Salvador, :Nunc dimittis servum tuum .. in pace. Traduzindo. « Agora, Senhor, podes deixar partir em paz o teu servo…».

Tendo-se cumprido o desígnio maior de Simeão: ver com os próprios olhos a Salvação incarnada naquele Menino ao colo de Maria, que ele, Simeão, também teve a oportunidade de sopesar com as próprias mãos, ele agradece a Deus toda uma vida cujo sentido pleno acabava de enxergar ao ter entre mãos o próprio Messias Salvador.

Por isso agradece de maneira sublime, dizendo a Deus que já morrerá em paz, pois atingiu o objectivo máximo que se tinha proposto.

João Paulo II teve um sentimento parecido no ano 2000. Tinha conseguido introduzir a Igreja no novo milénio e com um novo fôlego e renovado vigor. Sentia-se infinitamente grato a Deus por lhe ter permitido levar por diante tão magna tarefa, apesar do atentado de 1981 e das várias operações e da doença de parkinson. Coloca-se mais uma vez inteiramente nas mãos de Deus e confidencia-lhe filialmente que se sente plenamente realizado pelo trabalho desenvolvido. Já pode morrer, pois morrerá em paz pela obra realizada.

Um dos jornalistas, provavelmente pensando dar lições aos ignorantes, escreve: «nunc dimittis (sair agora). Queria a toda a força comprovar que o que certos jornalistas e não só afirmavam quanto à conveniência de o papa dever renunciar há tempo, tinha sido sentida pelo próprio papa. Puro engano! Qualquer palavra tem que ser interpretada no seu contexto. Além disso, se consultasse um dicionário de latim – português, como o de Torrinha, poderia ver que entre os significados de dimitto, estão os de «deixar ir» e também «perdoar», como muitos nos recordamos ainda de quando rezávamos ou cantávamos o Pai Nosso em latim.

O facto que gostaria de dar a conhecer, pois não o encontrei suficientemente relatado nos nossos meios de comunicação, refere-se ao Irmão Roger, da comunidade de Taizé, cuja aproximação à igreja católica se conhecia. Ele esteve presente no funeral de João Paulo II e recebeu a comunhão sacramental das mãos do cardeal Ratzinger, o presidente da celebração exequial. Tal facto deve ser interpretado como significando que o irmão Roger se converteu totalmente à Igreja Católica, pois a comunhão sacramental só pode ser recebida por quem está em plena comunhão com a Igreja. O irmão Roger tem ainda algo em comum com João Paulo II: o seu amor aos jovens e a atracção que neles provoca.

Gostaria de realçar bem mais aquela que acabou por ser a última mensagem do papa, embora póstuma, e que ele pediu expressamente que fosse lida no segundo domingo de Páscoa, o Domingo que, desde o ano 2000, é conhecido como o Domingo da Divina Misericórdia. Foi o próprio João Paulo II, em 30 de Abril de 2000, canonizando Santa Faustina, que satisfez um dos anseios mais fortes daquela mística polaca, falecida em 1938: que o Domingo da Oitava de Páscoa fosse dedicado a celebrar as maravilhas da misericórdia divina.

João Paulo II deixou escrito, e o cardeal Leonardo Sandri leu «com muita honra e nostalgia» as palavras que ficam como testamento derradeiro do Papa da Divina Misericórdia: «À humanidade, que, em certas ocasiões, parece perdida e dominada pelo poder do mal, do egoísmo e do medo, o Senhor ressuscitado oferece-lhe como dom o seu amor que perdoa, reconcilia e volta a abrir o espírito à esperança. O amor converte os corações e dá a paz. Quanta necessidade tem o mundo de compreender e acolher a Divina Misericórdia».

Não foi certamente mera coincidência que João Paulo II tenha morrido no dia 2 de Abril, um Sábado, dia especialmente consagrado a Maria, de quem ele se disse Totus Tuus, quando concluía a novena da divina misericórdia, iniciada em Sexta Feira Santa, tendo o seu secretário celebrado missa da Divina Misericórdia nesse final de tarde.

A tarde que amanheceu no domingo da Divina Misericórdia, mas com João Paulo a celebrá-la já em Eucaristia perene e total nos braços amorosos do Pai de toda a misericórdia, dia 3 de Abril, data do nascimento daquela que ele tinha canonizado em 30 de Abril de 2000: Santa Faustina. A jaculatória: «Jesus, eu confio em Vós» é como que o ícone de João Paulo II. Ele iniciou o seu pontificado dizendo-nos que não tivéssemos medo e que abríssemos os nossos corações a Cristo. Alentou-nos sempre à confiança em Cristo, rico em misericórdia, como proclamou encíclica dos primórdios do seu pontificado. Foi ele mesmo a imagem viva dessa confiança total e incondicional.

Dela lhe vinha a força que vencia todas as fraquezas e dificuldades. Morreu, deixando-nos a mensagem da urgência que o mundo tem de compreender e acolher a Divina Misericórdia.

Como escreve José Jiménez Lozano em ABC de 7/4: « As pessoas simples e os jovens, a quem as autoridades postiças nunca convenceram, adivinharam em João Paulo II alguém em quem podiam confiar; e fizeram-no». Está aí o segredo do seu magnetismo e poder de atracção. Por isso o definimos como o Peregrino da Esperança e da Divina Misericórdia.




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