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826. Meu Caro Zé

1 Antes de entrarmos na segunda lição que te prometi sobre valores, quero dizer-te o que me levou ao tratamento do tema. É que, há tempos, num bate papo à mesa do café, dois amigos ques-tionavam-se sobre a minha coloração política.

N/D
13 Abr 2005

Dizia um:- Ele é de esquerda!

Ripostava o outro:

– Qual quê, é mas é de direita!

Pois é. Isto torna-se difícil quando se quer catalogar, politicamente, as pessoas. Porque, prescindindo dos camaleões, embusteiros e trampolineiros, ser de esquerda ou de direita tem a ver com os valores que se cultiva, se defende!

E protestas tu:

– Mas, o que se vê por aí não é nada assim.

Claro, meu velho, tens razão. Vê-se gente que se diz de esquerda com valores de direita e gente que se diz de direita com valores de esquerda. Por ignorância ou esperteza saloia.

Porém, vamos ao que interessa. Um dos mais graves problemas dos nossos tempos é o vazio, a ausência de valores em que vivemos. Após o 25 de Abril e por culpa de certas ideologias proibiu-se mesmo falar em determinados valores (respeito mútuo, trabalho, disciplina, esforço…), porque eram valores fascistas.

Depois, a Família e a Escola deixaram de incutir valores, de cultivar valores! Era, por exemplo, degradante ser um aluno aplicado, estudioso, disciplinado, respeitador! E aquele que o desejasse ser, mesmo por conselho e imposição familiar, era enxovalhado!

– Resultado de tudo isto?

O nivelamento geral por baixo. E o padrão era o aluno indisciplinado contestatário, faltoso. E a Escola assiste, passiva e conformada, a esta moda com a cumplicidade e indiferença da Família e da sociedade. E as famílias que, de alguma forma, foram remando contra a maré, acharam-se desprotegidas e marginalizadas.

2. E, assim, rolando foi o tempo e o vazio, a ausência de valores!

– Mas, tem paciência, como é que se pode chegar a tudo isto?

Olha, caro Zé, por muito e por quase nada. O 25 de Abril apanha-nos desprevenidos. Poucos sabem de política e os que alguma coisa sabem é o que, sobretudo, interessa à sua ideologia e aos seus partidos. E, assim se foram, ao longo dos anos, dissolvendo costumes, invertendo ou renegando valores!

Mas, para que compreendas melhor o que se tem passado, e saibas a razão da crise de valores que nos aflige, aprende que há valores de esquerda e valores de direita. E uma enorme luta, já histórica, pela hegemonia de uns sobre os outros.

– E que valores são esses?

Por exemplo, a direita pugna pela fidelidade às raízes, a moral sobre a vida e as coisas, a família, a maternidade, a iniciativa privada, o individualismo, o corporativismo, a diversidade, a responsabilidade individual, o nacionalismo, o liberalismo económico… enquanto a esquerda se bate pelo direito à diferença, a igualdade de oportunidades, o aborto, o divórcio, o internacionalismo, a solidariedade, a defesa do ambiente, a qualidade de vida, a colectivização, a nacionalização, a autogestão, a distribuição equilibrada de recursos…

Ora, aqui, é que está o busílis e, como em tudo na política, começam os males e antagonismo da sociedade. Porque, repara, se um valor deve ser sempre um bem para o povo e para o país esse valor devia ter concertação por parte dos partidos. Ou, quando muito, os políticos (de esquerda ou de direita) deviam acordar num código de valores que fosse bom para as pessoas e para o país. E, depois, transmiti-lo, impô-lo.

– E isso alguma vez é possível?

Penso que, dificilmente, ou talvez só em países, culturalmente, muito evoluídos. Porque, da massa que são feitos os homens, mormente, os políticos é difícil entenderem-se (o que a direita diz ou faz, a esquerda desdiz ou desfaz, mesmo que seja bom para todos). E, por isso, vamos vivendo em estado permanente de ausência, inversão ou crise de valores. E com as consequências familiares, escolares, profissionais, económicas e sociais que fácil é adivinhares.

Agora, compreendes, meu velho, que muitas vezes são os políticos a confundir tudo, a complicar as coisas. E, até, a querer que o povo adopte valores que nada ou pouco têm a ver com a sua cultura e identidade!

E, respondendo aos dois amigos que discutiam à mesa do café sobre se eu era de esquerda ou de direita, lhes adianto: se ser de esquerda, por exemplo, é defender a liberdade, a igualdade de oportunidades e a qualidade de vida, então, eu sou de esquerda como se lutar pela família, pela maternidade e a moral sobre a vida e as coisas, por exemplo, é ser de direita, então, eu sou de direita!

Espero, caro Zé, que tenhas aprendido alguma coisa com estas duas, simples e despretensiosas, lições sobre valores. Até para que deixes de meter os pés pelas mãos como, por vezes, metes e, à tua volta, dês às coisas o seu verdadeiro nome!
Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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