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Sobre o medo das estátuas

1- Não passasse o sapateiro além da sovela… – No infausto dia 17 de Março de 2005 fez o 1.° ministro espanhol José Luís Rodriguez Zapatero retirar do centro da cidade de Madrid, a estátua equestre do falecido generalíssimo Francisco Franco Bahamonde (1892-1975). O monumento havia sido erigido junto ao longo Paseo de la Castellana, na praça de S. João da Cruz, quase ao lado do próprio Estado Mayor del Ejército.

N/D
12 Abr 2005

Houve quem aventasse que a rivalidade principal de Zapatero era com o cavalo de “caudillo”, que lhe faria demasiada sombra, e não com o próprio “caudillo”. Mas o pesadíssimo simbolismo do intolerante acto não se compadece com brincadeiras, mesmo em Castela, berço do humor de Cervantes e Quevedo. O problema de Zapatero era mesmo, infelizmente, com o grande militar e patriota galego. O problema de Zapatero é que quis apagar a História.
O problema de Zapatero é que está a faltar, com grosseria, ao respeito àquela metade (ou mais) dos espanhóis, a qual reconhece sem sombra de dúvidas o papel positivo que Franco teve na correcção dos graves desmandos esquerdistas e na pacificação (o melhor que pôde…) do seu país durante a 1.o metade do séc. XX.

Esquece Zapatero que, não fôra a vontade de Franco e a Espanha ainda hoje, em Março de 2005, poderia não ser nem Reino nem Democracia. Ou sê-lo apenas após alguma nova guerra civil ou no mínimo algum bem sucedido mas sangrento golpe de estado. Recorde-se a este propósito o assassinato à bomba do delfim de Franco, o 1.° ministro e almirante Carrero Blanco, em Dez. de 1973, 6 meses apenas após a sua nomeação. E mesmo assim Franco manteve o rumo democrático. E recorde-se a sintomática tentativa de golpe de Estado de extrema-direita de 23 de Fevereiro de 1981, da autoria de Millans del Bosch e Antonio Tejero Molina, chegando este último a ter por horas o Parlamento refém (e só terminando pela intervenção pro-Democracia do então já rei, don Juan Carlos).

2 – Zapatero como beneficiário da cumplicidade de Aznar na invasão do Iraque – Como bem se recordam, o socialista Zapatero subiu (aliás muito merecidamente) ao Poder na sequência dos terríveis atentados ferroviários de Madrid, em 11 de Março do ano passado. O conservador Aznar, seu antecessor, além de ter, sem qualquer pudor, ajudado os americanos a invadir e conquistar o estado soberano do Iraque (no que antagonizou 70% dos espanhóis) mentiu também acerca da clara origem islâmica dos citados atentados. E Zapatero começou bem, ao retirar de imediato as tropas espanholas. E assim se manteve em estado de graça durante uns meses.

Porém, passada essa fase “bem comportada”, logo deu algumas indicações acerca do seu verdadeiro valor, ao promover as ligações homossexuais ao patamar do matrimónio. Não sei mesmo, se devido à tradicional inversão de muitos valores que caracteriza a mundividência homossexual (sobretudo a masculina), o “matrimónio” destes não se devesse chamar antes “património” pois é uma esquisita ligação sexual e familiar a que falta uma “mater” e há 2 “patri”. E por outro lado consta que não falta dinheiro à dita comunidade…

3 – A vénus de Ille e os democratas iconoclastas – Como se evidencia agora, certas pessoas parecem ter medo que as estátuas de certos personagens de quem não gostam, se mexam e os assustem ou agridam. Que por exemplo, a estátua do D. Pedro IV no Porto dê alguma espadeirada num qualquer passante mais reaccionário.

Ou que a citada estátua de Franco junto ao Passo de la Castellana sacasse de repente da pistola e enchesse de chumbo algum trausente anti-fascista mais desprevenido…
Algo de parecido, “cum grano salis”, aconteceu comigo na minha adolescência.

Recordo-me que uma vez passei a noite sem dormir, só porque lera dum jacto uma fascinante novela do autor da “Carmen”, Prosper Merimé (1803-70), chamada “A vénus de Ille”. Tratava-se, se bem me lembro, de um casamento na parte oriental dos Pirinéus franceses (na comuna de Ille-sur-Tet, perto de Perpignan, no Roussillon) e havia uma estátua de Vénus que de repente se mexia e matava uma pessoa. O bastante para sobressaltar o sono dum jovem de 15 anos que julgava já ter consolidado ideias acerca da neo-mobilidade expontânea de objectos de ferro inanimados.

Por estas ou outras razões, o certo que uma mudança de regime político é frequentemente acompanhada da destruição ou simples remoção de estátuas ou monumentos do passado. Não foram só os Comunismos russo, chinês, angolano ou moçambicano que o fizeram. Nem os fundamentalistas islâmicos no Afeganistão ou (outrora) na biblioteca de Alexandria. Ou os fundamentalistas católicos no México (penitenciemo-nos sem complexos, pois a intervenção dos jesuítas na América do Sul foi de cariz bem diferente…).

Os democratas foram eles próprios iconoclastas em muitas ocasiões, especialmente a respeito de qualquer vestígio simbólico dos diversos Fascismos. Lembremo-nos apenas do rebaptizar da ponte “Salazar” para ponte “25 de Abril”. Da destruição da estátua do mesmo estadista na sua terra natal. Ou do estádio “28 de Maio”, que passou a chamar se “1.° de Maio”. E por aí fora. No próprio Iraque, recorde-se o trabalho que os “libertadores” norte-americanos têm tido para remover todas as estátuas de Saddam Hussein, o qual ainda por cima mantêm preso em parte incerta.

4 – Franco visto como um Quijote esclarecido – Eu próprio confesso que levei bastantes anos até tomar partido pala facção nacionalista na história da Guerra Civil Espanhola de 1936-39. Hoje estou convencido de que Franco foi um Ramalho Eanes em escala ampliada, um vingador que surgiu do nada, um Zorro, um redentor, um salvador da unidade política da Espanha. E um homem que logo a seguir, em 1940, recebeu Hitler, o dono da França, na fronteira de Hendaia e lhe soube decidida mas polidamente dizer “não”, com aquele sorriso tão espanhol que ele sabia fazer, sorriso de merceeiro, de lavrador, de cigano e de carabineiro.

Da iconografia do generalíssimo destaco 2 retratos. Um em trajo de cadete, aos 17 anos, magro mas com um olhar distante, altivo, selvagem e premonitório de herói. Outro retrato, em Janeiro de 1969, velho sábio cansado, com chapéu de caçador, em Ciudad Real.

Apesar de na veterania instalada o seu aspecto poder recordar mais Sancho Pança que D. Quixote, Franco foi realmente um Quixote, impulsivo, tradicionalista, valente, generoso. Mas ao contrário do patético personagem de Cervantes, o galego de Ferrol era um homem esclarecido que não se iludia com miragens nem confundia castelos com moinhos.

E se o seu Ferrol natal já não se chama “del Caudillo”, há ainda um certo número de aldeias espanholas que conservam esta designação. É quanto basta… Só que, os que removeram a estátua equestre de Franco já pensam um dia provavelmente retirar a do próprio Quixote, quem sabe…




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