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O outro lado do Congresso Mundial

Um acontecimento mundial desta natureza, merecia ter outro impacto na sociedade portuguesa. Na grande imprensa houve referências esporádicas, mesmo estando ali figuras de projecção nacional e a ambrangência tivesse sido de carácter mundial.

N/D
12 Abr 2005

Iniciativa semelhante organizada pelas forças políticas do país, “outro galo cantaria”.
Mas já nos habituaram a dois pesos e duas medidas e a vida terá de continuar desta maneira. Será fatalismo ou eclesiofobia?

Tratava-se do I Congresso Mundial das Comunidades portuguesas (organizado pela Igreja), pois a nível político, já em tempos que por lá andei se organizaram outros com estas dimensões, e até com mais pompa e circunstância.

A temática era interessante: “Ousar a memória, fortalecer a cidadania”. Os objectivos eram claros: Identificar as mudanças psico-sociais nas Comunidades Portuguesas; Assumir a “memória sofrida” da emigração de cinco milhões de pessoas; decidir sobre novas formas de acompanhamento e inserção eclesial, responsabilizar e envolver as estruturas da Igreja em Portugal.

Quase por acidente eu estive ali, acompanhando D. Manuel Martins, que foi um dos conferencistas. Porque a problemática ainda me baila no fundo da alma, porque participei em dezenas de iniciativas deste tempo, nos meus vinte anos de emigração, e porque ali encontrei vários colegas de aventura da diáspora, ali estive os dias de reflexão. Além disso, teria também interesse em dar a conhecer o meu último livro “Somos um Mosaico – Da emigração para a imigração”. O que de facto aconteceu, embora sem qualquer apresentação, alguns “emigrantes” congressistas o levaram.

Os peritos nestas questões da emigração ajudaram na reflexão. Muitas das coisas ali ouvidas andei eu a ouvi-las e escreve-las, muitos anos seguidos; entretanto, outros aspectos novos e diferentes vão-se pondo, hoje em dia, à reflexão da sociedade portuguesa e também a nível europeu e mundial. Presentemente a população emigrante portuguesa (portugueses e luso-descendentes) ronda os cinco milhões (40%) e os fluxos imigratórios no nosso país, andam pelos 5% da população total residente. Números que se apresentam sintomáticos e inquietantes.

Foram muitos os aspectos que os oradores ali levaram para reflexão, com carácter científico, a nível da sociologia, da psicologia, da economia, da cultura, do relacionamento, da integração, da interacção e da própria pastoral. Hoje, mais que ontem, o olhar crítico sobre muitas atitudes e iniciativas dos Governos, das Associações, das Comunidades e da própria Igreja, devem ser assumidas com maior exigência e compromisso.

A pluralidade das culturas, as acções multiculturais e as iniciativas interculturais, o respeito, o diálogo, as parcerias entre os diversos intervenientes, tornam-se mais que necessárias, para a sã e harmoniosa construção da sociedade actual, ou das sociedades hodiernas.

No final foram apresentadas conclusões que ninguém contestou e que servirão para guião, de novos compromissos da Igreja e da sociedade portuguesa, assumidas pela Obra Católica das Migrações. E embora a responsabilidade pastoral seja um atributo essencial das Dioceses locais, as Igrejas de envio devem partilhar estas responsabilidades, pois embora não havendo Igrejas nacionais, há comunidades cristãs locais, com determinada cultura, maneira específica de viver os ritos religiosos e a própria fé.

As conclusões foram repartidas em tres direcções: novos olhares sobre as migrações portuguesas; a acção da Igreja nas migrações e as perspectivas futuras. No entanto, o que mais nos preocupa, são os caminhos a percorrer no futuro. Que fazer, quando os líderes tradicionais começam a faltar, uma vez que foi a Igreja que sempre teve o papel pioneiro e fundamental?

A família deve desempenhar um papel fulcral na transmissão dos valores, na vivência da fé; as associações e movimentos, estão eles preparados para fomentarem o diálogo intercultural? As comunidades cristãs de base crescem numa linha ecuménica e inter-religiosa? As forças eclesiais e políticas sabem entender-se para um melhor acolhimento e integração dos emigrantes nas comunidades receptoras?

Há o suficiente cuidado e compromisso para a salvaguarda e dinamização da identidade cultural portuguesa nas comunidades emigrantes? Há a suficiente e exigente formação social e política na dimensão dos direitos e deveres, de quem parte e procura trabalho, segurança, saúde e os demais bens sociais, noutras pátrias ou noutros continentes?

As migrações continuam a ser um “apêndice” da nossa política. Sempre o foi (já quando eu andava nesses circuitos) e parece continuar a sê-lo. O que pesa mais neste âmbito é o aspecto económico (sempre o foi e continua a sê-lo). Nem por estarmos no século XXI, os problemas dos emigrantes são menos cruéis e menos desumanos. Há hoje injustiças e situações de desumanidade muito mais gravosas que nos anos sessenta e setenta. E neste aspecto, tal como já o escrevi, “vejamo-nos ao espelho”.

Aquilo que não gostaríamos que os portugueses sofressem lá longe, estamos, talvez, a infligir aos imigrantes que estão, trabalham e vivem connosco.

Por certo, por metodologia não foi facada a outra face das migrações, que são os cerca de quinhentos mil imigrantes que acolhemos, agora, entre nós. É a outra face para um outro Congresso Mundial que ficará, por certo, para um outro tempo. Não nos esqueçamos daquela palavra de D. José Policarpo: o responsável pastoral dos cerca de 200 mil imigrantes da minha diocese de Lisboa, sou eu.

Responsabilidades pastorais, políticas, sociais, culturais, de diálogo, de interacção, de integração relacionadas com os imigrantes, não nos faltam. Que esta reflexão se faça numa próxima ocasião, não muito longínqua. Torna-se necessária. Torna-se, também, essencial.




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