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As escolhas de Marcelo

Será que o professor Marcelo concedeu o estado de graça ao governo que iniciou funções? Será a acalmia antes da tempestade? Ou a paz podre da conveniência?

N/D
11 Abr 2005

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa aparece na RTP com uma nova postura ou, se quisermos, com uma nova compostura.

Quando fazia os seus comentários na TVI era muitas vezes agressivo, truculento até ao limite da agressividade; dizia as verdades aos governos e falava dos governantes sem papas na língua.

Era mais fácil, então, estar de acordo com o teor do que com a forma dos seus comentários, mas ouvia-se sempre com agrado. Quando foi do governo de Santana Lopes então a coisa raiou o escândalo da parcialidade, parecendo mais dor de cotovelo do político Rebelo de Sousa do que juízo de avaliação isenta do comentador Rebelo de Sousa.

Com essa medida de exagero, reconheça-se, precipitou a queda de Santana Lopes. Ouvi-lo nessa ocasião e escutá-lo hoje é um bom exercício de memória comparada.

Agora aparece-nos muito manso, muito menino da mamã, muito cordato, muito satisfeito com as escolhas dos ministros do actual governo; no tempo de Santana Lopes, – para o Professor -, nenhum ministro ou secretário de estado tinham formação especiífica para o desempenho das respectivas pastas; os de agora, – pelo silêncio do Professor -, todos são magníficos e sem excepções; até os secretários de estado estão em estado de graça.

Em nosso juízo não sabemos se são bons ou maus os actuais governantes, esperamos para ver porque sempre seremos mais cronistas que profetas; o que nos admiramos sinceramente é que sejam todos tão bons para Marcelo Rebelo de Sousa! Saiu da TVI por causa dos accionistas.

Estes quiseram coser-lhe a boca e ele não pactuou. O accionista da RTP é o Estado e quem o governa é José Sócrates. Será alguma coisa dependente destes circunstancialismos que fizeram das falas bravas as falas mansas de Marcelo?

Ele irá pactuar? Palavra de honra, este Marcelo de plástico, delico-doce, não nos enche o papo. Sinceramente espanta-nos a aragem desta viragem. Antes o outro Marcelo, controverso, discutível, repudiado ou adorado segundo a bandeira e a cor de cada um.

Será que o professor Marcelo concedeu o estado de graça ao governo que iniciou funções? Será a acalmia antes da tempestade? Ou a paz podre da conveniência? Mas ele como pessoa inteligente que é, e sabedor de política como tem largamente demonstrado a todo o País, deve saber que ajudará melhor criticando do que calando, porque, neste caso todo o silêncio é um elogio.

Qualquer governante necessita que se Ihe diga que vai mal quando caminha pela vereda errada. Pode não gostar mas as opiniões construtivas não batem em vão.

Não lhe ficou nada bem dizer, numa intervenção televisiva, – Domingo, 13 de Março – que Santana Lopes não teve estado de graças porque foi precisamente o professor Marcelo Rebelo de Sousa quem lho não concedeu ao deitar abaixo esse mesmo governo mesmo antes dele ter iniciado funções.

Nunca fomos a favor do governo de Santana Lopes. Neste jornal o declaramos mais que uma vez. Não é por ele que estamos a tomar posição mas apenas pela diferença de postura do comentador Rebelo de Sousa.

Estamos em crer que estas novas maneiras de Marcelo virarão, em tempo de consolidação do lugar de comentador, noutra dimensão, igual ou semelhante à velha dimensão que teve na TVI.

Caso contrário a doçura sempre se confundirá com a impostura. Portugal precisa de massa crítica, inteligente e de carácter, mas dispensará sempre, e em quaisquer circunstâncias, os que correm na crista da onda e têm medo de nela se afogar.

Um pedido da formiga: sr. Professor Marcelo, não encolha as suas escolhas.




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