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O luto que se tornou primavera de esperança

O sentimento de luto pela morte do Papa João Paulo II tornou-se inesperadamente um grande desafio para a Igreja.

N/D
10 Abr 2005

Nunca a Igreja esteve tão no centro das atenções do mundo como hoje. O relato das reacções à morte do Papa que vemos todos os dias nas televisões é de tal maneira impressionante que isso interpela a Igreja a seguir e desenvolver o seu legado de humanidade e de fé.
Mal foi conhecida a sua morte, o mundo comoveu-se de dor e de saudade como se tivesse perdido um pai e um profeta como já há muito não se conhecia. Mas este pesar transformou-se, de repente, num anúncio de exigência de vida mal tinha ocorrido a sua morte.

É uma autêntica primavera de esperança que se abre após a sua morte, feita de pétalas de lágrimas e de lenços brancos de esperança. Talvez aquela imagem maravilhosa do Adeus de Fátima a acenar com lenços brancos, como se fossem brancas pombas de paz que se soltam das mãos do povo, seja a imagem mais expressiva para descrever esta primavera inesperada de esperança.

É uma enorme responsabilidade que recai sobre a Igreja esta primavera de esperança. Dizem que entre as suas últimas palavras estarão estas: “Estou preparado! Estejais vós também!”

A parte dele cumpriu-se. Agora falta cumprir a outra parte, a da Igreja, assumindo os caminhos evangélicos da sua herança espiritual. Saber interpretar estes sinais dos tempos e ser mensageira desta esperança de humanidade, de justiça e de fé é realmente um momento de grande responsabilidade: corresponder a essa expectativa mundial de continuar os caminhos deste Homem sem medo que percorreu o mundo a pedir que abrissem os corações a Cristo.

E quais são esses novos caminhos? Inegavelmente, os caminhos da nova evangelização. Esse é o grande desafio dos cristãos de hoje. A eles se pede que abram os olhos e o coração e vejam que as formas que a mensagem tem assumido são menos importantes do que a própria mensagem.

Foi essa procura incansável de autenticidade para além das formas culturais que fez João Paulo II diferente e grande.

Diz-se que o Ocidente se tornou laicizado e indiferente, senão mesmo agnóstico e ateu. Ao ver as reacções do povo à morte de João Paulo II, fico com dúvidas se muita dessa laicização não será também resultado de uma deficiente evangelização e uma reacção a determinadas formas de clericalização do passado.

Dizem que ele era exigente; mas o povo canonizou-o já, porque sentiu que, para além dessa exigência, estava um coração que amava, que compunha poesia, que cantava e dançava com os jovens, que tocava o além á procura de um sentido para a vida.

Talvez a laicização seja apenas um verniz cultural e defensivo que esconda essa necessidade de procura do além que dá sentido à vida. Por isso, o importante não será que a Igreja se preocupe muito com modelos programados de acção, mas com a autenticidade dessa acção evangélica, pois é através do testemunho que a mensagem atravessa essas defesas de laicização.

Foi assim também, ainda há bem pouco tempo, com a carismática e frágil Madre Teresa de Calcutá. Não foi a sua roupagem de hábito exótico que fez grande e luminosa a sua alma, mas o seu amor aos Homens onde ela via também a figura de Cristo.

É a hora da grande reflexão para continuar os caminhos proféticos, mas prudentes, deste grande Homem. Apresentando-se, embora, sob a figura tradicional da Igreja, ele era autêntico por baixo dessa roupagem, o que quer dizer que não é a forma que conta, mas a realidade.

Os sinais de hoje apontam para a procura do mistério dessa realidade oculta que está para além das formas.

Conjugam-se aqui dois factores para este sinal inesperado de renascimento de esperança: o sentimento de luto e de perda pela morte de um carismático profeta do século XX (que era líder da Igreja) e o emergir do sentimento da necessidade de procura do além, que caracteriza os nossos dias.

A conjugação inesperada destes dois vectores abre um tempo especial para a acção da igreja como até agora seria impensável. E seria uma grave omissão que não fosse capaz de ler estes sinais dos tempos e deixasse passar em vão este momento.




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