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João Paulo II de judeus, muçulmanos e católicos

Na madrugada de ontem, a 2: transmitia um concerto com a Orquestra Sinfónica de Pittsburgh e os coros também de Pittsburgh e de Ancara, de Londres e de Cracóvia, dirigidos pelo maestro Gilbert Levine.

N/D
10 Abr 2005

O que a televisão mostrava tinha sido gravado no passado dia 17 de Janeiro na Sala Paulo VI, no Vaticano.
Numa breve intervenção, João Paulo II aproveitou o momento para sublinhar a importância da reconciliação que a mensagem universal da música propiciava.

E era, justamente, com o propósito de promover a reconciliação que o concerto se realizava. A sala cheia de judeus, de muçulmanos e de católicos testemunhava o sucesso da iniciativa.

Ver judeus, muçulmanos e católicos, lado-a-lado, comungando, designadamente, o primeiro, o quarto e o quinto andamentos da Segunda Sinfonia de Gustav Mahler pode parecer algo normal.

Tal como hoje muitos olham para uma televisão ou para um telemóvel e não supõem que houve um período em que estes objectos não existiam ou já não se lembram de como era a vida na altura em que ainda não tinham sido inventados, também não falta quem não saiba ou não se recorde que, há bem pouco tempo, era difícil ou impossível o encontro público de dignitários de diferentes religiões.

Se, hoje, se pode encarar com normalidade o facto de judeus, muçulmanos e católicos se reunirem numa sala para ouvir música, isso deve-se a João Paulo II. Não é, pois, por acaso que judeus e muçulmanos, em Portugal e noutros países, se juntaram aos que têm vindo a elogiar a acção do Santo Padre.

Apesar de ainda ser longo o caminho que há para percorrer para que as religiões sejam sempre e só factor de paz, há passos dados que, nesse sentido, só podem ser interpretados como bons augúrios.

As mais de uma centena de viagens apostólicas de João Paulo II a 130 países de quase todos os cantos do mundo – o que totalizou 1 300 000 quilómetros percorridos – têm sido sempre referidas como uma das marcas mais fortes do Papa global.

Não deixa, contudo, de ser interessante recordar uma declaração do que foi o grande rabino de França, René-Samuel Sirat, que sustentou que “a maior viagem que um papa fez em vinte séculos de cristianismo foi a que efectuou João Paulo II à sinagoga de Roma”.

A afirmação documenta eloquentemente a importância da histórica deslocação do Santo Padre ao templo judeu, realizada no dia 13 de Abril de 1986, e que, de resto, não representaria um gesto único de aproximação aos judeus.

No ano do jubileu, no memorial Yad Vashem, na Terra Santa, o Papa curvar-se-ia perante a memória das vítimas do Holocausto e colocaria no Muro das Lamentações um texto de arrependimento pelas faltas cometidas pelos católicos em relação aos judeus.

“O Papa tinha um amigo de infância, um jovem judeu que perdeu de vista no meio da confusão da guerra. Por ocasião da visita à sinagoga de Roma, o seu amigo estava lá. Foi uma simples história de amizade.

Foi também o símbolo das relações restabelecidas entre judeus e cristãos, sob a égide de um padre que uns dizem ser santo.

Mas outros, que apenas reconhecem a Deus a santidade, aceitam bem que, nesse dia, aquele que Lhe pediu perdão não estava longe da sua santidade”, afirmou a escritora judia Éliette Abécassis à revista francesa Le Point de 4 de Abril.

Em 2001, em Maio, em Damasco, João Paulo II entraria na mesquita de Omeyyades. Era, assim, o primeiro Papa a entrar num templo muçulmano. Aí, lembrou que “a violência destrói a imagem do Criador nas suas criaturas”.

“Esta frase pode ser traduzida por esta ideia: em cada ser humano, encontra-se uma parte de Deus em que ninguém está autorizado a tocar”, escreve, também na revista Le Point, o antropólogo e psicanalista muçulmano Malek Chebel.

Ovacionar um papa na terra do islão é algo que, há uma vintena de anos, ninguém conseguiria imaginar, nota Malek Chebel, que acrescenta que “isso foi possível graças a João Paulo II. Em Marrocos, no Líbano, na Síria, na Terra Santa, ele foi recebido com um fervor e uma comunhão ímpares pelas populações árabes”.

O Papa veio também a Assis, diz ainda o antropólogo e psicanalista muçulmano, “à terra de que é patrono o bom S. Francisco, para pregar uma palavra nova, que apenas é ecuménica na aparência, pois, em profundidade, tal palavra está totalmente em sintonia com a nosso actual caminho espiritual”.

“Temos de encontrar em nós a coragem da paz”, proclamava, no final do Concerto da Reconciliação, que a televisão exibiu na madrugada de ontem, João Paulo II.

Essa coragem foi algo que nunca faltou ao Papa. Essa coragem não será uma parte menor do seu legado.




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