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Um apelo muito especial

No passado dia 7 de Março, no programa “Prós e Contras”, a RTP1 trouxe a lume um tema que preocupa e angustia muita gente.

N/D
9 Abr 2005

É ver quantas pessoas continuamente dizem de sua justiça e sobejamente reiteram a repulsa pela eutanásia.
Eu me associo de alma e coração às opiniões expostas. Sendo a vida um dom de Deus, só Ele pode decidir quando e como pôr-lhe um fim. O nosso querido Santo Padre acaba de nos dar um magnífico exemplo desse desígnio insondável do Senhor.

Uma médica do IPO de Lisboa, presente no programa televisivo e que também se pronunciou agora, na véspera da viagem serena de João Paulo II, defende a morte com dignidade. Para isso – diz ela – o doente terminal deverá estar em casa, sempre que possível, rodeado pelo amor e carinho dos seus e, claro, sem dores.

Eu também penso assim e gostaria que assim fosse com todos os que partissem antes de mim. Penso que somente as dores horríveis, o abandono e desconforto serão responsáveis pelo pedido da morte dos doente. De outra forma, todos quererão “viver a sua morte” e deixar esta vida transitória em paz e dignidade.

No entanto, há doenças que não permitem que o doente esteja em casa, tão amiúde exigem cuidados médicos, máquinas e outros artifícios que suavizem o fim. Então, há que ter meios nos hospitais, há que arranjar espaços para possibilitar ao doente a companhia dos familiares mais íntimos, sem descuidar os restantes serviços.

Há que humanizar os hospitais e criar neles centros de paz, de amor, de dignidade. Serviços continuados, em Portugal, penso que há apenas no Porto (não sei se em Coimbra) e Lisboa, nos IPO.

Em Setembro de 2003 tive a fatalidade de ver o meu marido falecer nos cuidados intermédios do Hospital de Viana do Castelo. Em Setembro de 2004 deixou-nos um jovem muito querido, muito amado, filho da minha irmã, depois de quatro meses nos cuidados continuados do IPO do Porto.

Em ambos os casos, nós, a família, tivemos a certeza, que tudo foi feito para os salvar e que só nos deixaram, porque esta é a lei da vida que ninguém pode travar.

De resto, se acreditarmos, como eu acredito, que a morte é o começo de uma outra vida, que é a definitiva, a que jamais nos trará problemas, dores, tristezas, a que é para ser sempre, aquela, enfim, por que aspiramos durante esta, a terrena, transitória e finita, quando nos morre um ente querido nem devíamos chorar, nem sei porque choramos, o choro contradiz a nossa fé e só acontece porque somos humanos, logo, de fraco entendimento sobre o divino, de grande incoerência e fragilidade.

Estes meus doentes queridos foram muito bem tratados. No hospital, tanto quanto possível, pois a nossa presença obedecia a regras, sei que médicos e enfermeiros dispensaram assistência, atenção, carinho, companhia, atendendo todos os chamados de dor.

Os cuidados continuados do IPO do Porto funcionam de forma quase divina.

Os médicos e enfermeiros, acrescentando as pessoas que fazem voluntariado, transformaram aquele lugar de dor, de tristeza, de morte, num espaço aprazível, quase de bem-estar, tal é a tranquilidade que ali se vive.

A minha irmã e meus cunhados acompanharam o filho, de manhã até à noite, durante os quatro meses que ele ali esteve. Nós íamos sempre que podíamos revezando-nos. Faleceu sem dores, sem angústia, aceitando a morte sem a desejar (ou, a certa altura, desejando-a mesmo?).

Faleceu a falar com a mãe, com a mão na mão dela e assim partiu, com aquele bordão, a caminho do Céu. Conquistara-o aqui, que é aqui que temos de o conquistar. Foi apenas ocupar o lugar que tinha reservado.

Não numa situação de hospital, mas em casa, em nossa casa, rodeado pela nossa mãe e os cinco filhos, faleceu, há muitos anos, o meu pai.

Também santamente, sem dores, aguardando serenamente a hora da partida, a chegada do autocarro que ele sabia vir à tabela. Sem um aí, sem um trejeito de dor, olhando-nos a todos, como dizendo-nos: “amo-vos, até um dia”.

Estes exemplos de morte para a vida, estas partidas tão santas, levam-me a concluir que não tem sentido defender ou aceitar a eutanásia. Porém, é preciso que o doente terminal não sofra e receba todo o carinho possível, particularmente nos momentos mais difíceis, na hora do passamento.

Só assim ele partirá feliz, sabendo que não estará nunca sozinho, onde quer que esteja. Sabendo que a vida vale sempre a pena, que a vida nunca se perde, apenas o corpo, que é quase nada. Não lembram, sequer, os conceitos platónicos e neoplatônicos de que ele foi a prisão da alma.

O corpo deixa de contar, nem como continente o recordam, porque só o conteúdo é valorizado nessa hora derradeira. Mas… a verdade é que há doentes desesperados, a quem as dores não são tiradas, a quem não se presta atenção, a quem se nega a companhia, o carinho, o amor.

Doente abandonados, crianças e idosos, sobretudo, mas também jovens, como o Carlos do programa televisivo, enterrado num asilo de velhos, sobrevivendo à custa do esforço heróico de uma irmã que precisa de trabalhar para que ele viva, que não lhe nega o amor, mas que não pode dar-lho.

Pobre Carlos tetraplégico! Como pode ele aguentar? Tal como o Ramon que não aguentou e pediu ajuda para morrer, não irá o Carlos fazer o mesmo?

Porque não se faz um espaço, nem que seja sobre-humano (às vezes somos capazes) para criar, em todos os hospitais, esses benditos cuidados continuados?

Não penso em obras gigantescas, não peço impossível, mas um trabalho com regras, ordenado, progressivamente melhorado. Numa primeira fase (e porque não sempre?) apele-se ao voluntariado.

Essa gente abnegada, corajosa, essa gente de fé que tão bem sabe servir o seu semelhante e, nele, a Deus.

Aqui, no nosso hospital, se acharem viável disponibilizar um espaço para estes cuidados, eu ofereço-me como voluntária e não irei sozinha. Não substituirei ninguém, já que todos serão necessários. Farei o que for preciso e útil, se não souber, aprendo.

À autarquia, ao governo, a todos quantos tenham poderes para tal, pretendo sensibilizar. A pessoa humana, porque também de natureza divina, merece viver e morrer com dignidade.

A pessoa humana não pode ser substituída, na sua categoria, no seu espaço, no seu tempo, por toda essa materialidade que grassa nas sociedades modernas.

Nota – Soube, entretanto, que o meu concelho (Vila Verde) – graças ao Deus da Misericórdia! – está receptivo a esta ideia e aberto a sugestões. Bem hajam!

Eu tenho muitas ideias e estou pronta a dá-las.




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