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Sismos que afectaram o litoral nortenho

O tsunami do Índico relançou a questão das ameaças sísmicas sobre o território continental português. São do conhecimento geral as localizações dos epicentros dos sismos mais violentos que nos têm afectado: a falha Açores-Gibraltar, os vales do Tejo e Sado, o litoral algarvio, a falha da Nazaré e o vale da Vilariça.

N/D
7 Abr 2005

Ao longo dos anos, contudo, tem havido também um certo número de sismos com epicentro no Atlântico, não muito longe da costa portuguesa, em zonas habitualmente consideradas invulneráveis ao risco sísmico.
Por exemplo, em 1983, os residentes do Porto e de várias outras localidades nortenhas sentiram tremores de terra por duas ocasiões (Janeiro e Novembro), embora sem grande intensidade. Idêntico cenário repetiu-se a 29 de Julho de 1988 (magnitude 4,7) e raro é o ano em que os sismógrafos não registam dois, três ou mais pequenos abalos com epicentro situado a algumas dezenas ou centenas de quilómetros das costas da Galiza e do Norte de Portugal.

Recuando um pouco mais no tempo, apercebemo-nos de que estes sismos podem ter consequências mais sérias. A 20 de Junho de 1936, um abalo de magnitude 5,6 com epicentro no banco da Galiza, montanha submarina a 200 km do cabo Finisterra, provocou agitação na barra do Douro e ondas alterosas em Vigo – um pequeno tsunami – suscitando inquietação e mesmo pânico desde o Porto até Valença.

O final do século XIX foi igualmente marcado por vários sismos com epicentro atlântico. Um dos mais impressionantes deu-se no dia 25 de Outubro de 1877, quando um sismo de magnitude 6 abalou todo o litoral (mas foi também sentido em Badajoz), chegando a provocar cenas de pânico na Maia e noutras localidades nortenhas.

A 21 de Outubro de 1880, um tremor de terra ainda mais forte provocou estragos em casas e muros, além de cenas de gritaria por toda a região Norte. Anos depois, a 22 de Dezembro de 1883 e a 22 de Dezembro de 1884, e à mesma hora da madrugada – a coincidência impressionou, na altura, alguma gente – dois sismos voltaram a provocar susto em toda a costa, como testemunham os jornais da época.

Mas é natural que tenha havido muitos mais. Basta ver que o sismo de 1880 – apesar de noticiado em jornais como O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro – não era mencionado em qualquer dos catálogos sísmicos nacionais, tendo sido descoberto há apenas alguns anos, graças ao incansável trabalho do investigador espanhol Fernando Rodríguez de la Torre. E, por maioria de razões, os catálogos pouco ou nada dizem acerca do que terá acontecido nos séculos anteriores, apenas referindo dois sismos terríveis em 60 a.C. e 949, acompanhados de tsunamis devastadores, e um outro bastante forte em 1783. O balanço deve estar muito, mas muito aquém da realidade

Qual a razão de tamanhas lacunas no conhecimento da sismicidade histórica do litoral Norte? Estamos em crer que tal se deve ao pouco interesse que o tema despertou desde sempre, entre os nossos historiadores, mas também ao facto da corte e dos principais cronistas do passado terem fixado residência em Lisboa e no Sul.

Por isso, embora se especule com períodos de retorno de 200 ou 400 anos para o terramoto de Lisboa, pouco se pode ainda dizer de concreto, por exemplo, acerca da periodicidade dos sismos (e tsunamis) com origem no banco da Galiza. O que não nos deve deixar de preocupar, mesmo atendendo a que o risco sísmico deve ser inferior ao de outras regiões. Como já alguém disse, é impossível que um acontecimento improvável não venha algum dia a acontecer…




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