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O «meu» Papa…

Quando João Paulo II defendia a paz, os direitos humanos, os mais pobres… não erao «progressismo» que o preocupava, mas o anúncio do Evangelho, com a força de Deus

N/D
6 Abr 2005

Escrevo comovido porque vejo já cadáver o «meu» Papa, aquele que marcou o meu amadurecimento como homem e como cristão. Virão outros. Serão, assim o espero, homens santos, segundo a vontade de Deus – mas nenhum será o «meu» Papa como este foi.

O passar das horas não torna mais fácil escrever. Dói-me a incapacidade de escrever algo que valha a pena. Perante um homem destes, diante do seu corpo inanimado, há demasiado para dizer e é demasiado limitado o engenho para ordenar o turbilhão das ideias.

Salta-se de uma para outra, todas parecem importantes, parecem estar todas a correr ao mesmo tempo para o teclado do computador e depois…

Tem-me impressionado encontrar textos belíssimos sobre João Paulo II de gente que, pelo menos imediatamente, não ligo com a imagem do crente – e, em alguns casos, o não é, assumidamente.

Tenho encontrado também análises preconceituosas, de quem procura diminuir o legado do Santo Padre a partir de pormenores teológico-disciplinares tantas vezes sem significado para a grande maioria dos católicos.

Nestas análises ressalta, quase sempre, a distinção entre o «progressismo» e o «conservadorismo» do Papa, o lamento pelas «oportunidades perdidas», a afirmação de que João Paulo II não soube «compreender» a modernidade…

Insistir nas teclas do «progressismo» e do «conservadorismo» para «entender» João Paulo II é perder tempo. O «meu» Papa era homem de uma peça só, de uma inteireza sem concessões, de uma convicção sem cedências.

Não, não se trata de fanatismo, trata-se simplesmente de fé – fé no Deus revelado em Jesus Cristo, fé no Senhor Jesus, fé no poder e na acção persistente, ainda que tantas vezes ignorada, do Espírito Santo, fé no Evangelho de Jesus Cristo anunciado desde há dois mil anos pela Igreja.

E a certeza de que anunciar este Evangelho vale a pena, vale todas as penas – daí, a atenção do «meu» Papa aos mártires, o seu desejo de que a Igreja escreve o martirológio do século XX; e a canonização e beatificação de tantos e tantas que, pelo exemplo e pela palavra, levaram até ao fim a fidelidade ao Evangelho.

Quando João Paulo II defendia a paz, os direitos humanos, os mais pobres… não era o «progressismo» que o preocupava, mas o anúncio do Evangelho, com a força de Deus. Quando condenava o aborto, a eutanásia, o casamento de homossexuais… não era o «conservadorismo» que o ocupava, era o anúncio do Evangelho, com a força de Deus.

Quando afirmava a doutrina que a grande Tradição da Igreja consagrou, mesmo contra os teólogos «da moda», cheios de sucesso na comunicação social, não o fazia por «centralismo», por «vontade de poder» – fazia-o, simplesmente, porque a sua missão lho exigia, sabendo que a Igreja não podia ir por ali e continuar a ser a Igreja católica.

Quando afirmava que a verdade tem direitos e que razão e fé, aliadas, podem levar o homem por caminhos de maior sabedoria, não o fazia para rejeitar a modernidade, antes para lhe recuperar a capacidade de caminhar de modo equilibrado e edificar uma sociedade mais harmoniosa e humana.

Dizer que a fé cristã tem um conteúdo e que esse não está ao dispor de ninguém – nem do Papa – foi missão que João Paulo II levou até ao fim.

Fazê-lo sem desfalecimentos, mesmo quando o corpo maltratado pede repouso, é exemplo acabado do significado de ser discípulo…

E revela uma inteligência do Evangelho e uma atenção às necessidades do mundo moderno bem mais certeiras do que certas propostas teológicas que, de tanto racionalizarem, explicarem e esvaziarem o mistério, acabam por não ter nada a propor ao mundo e aos homens e mulheres desta modernidade sem saídas.

Esta é, para mim, uma das heranças, e não a menor, do «meu» Papa: uma Igreja Católica atenta à diversidade e respeitadora da legítima liberdade de investigação e opinião; mas uma Igreja consciente da sua diferença, conhecedora do mistério que a habita, cuidando com desvelo da Tradição que lhe dá forma.

E uma Igreja que afirma sem complexos essa diferença e esse mistério, contido nas Escrituras e na Tradição e confiado, em última instância, ao magistério eclesial.

Se isto é «conservadorismo», então, para mim, chamar «conservador» a João Paulo II é o maior elogio ao «meu» Papa.




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