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Morreu o homem que tocava o além

O mundo chora, unido na dor, mas confortado na esperança que ele semeou, a morte do Papa João Paulo II como quem chora a morte de um pai universal e só agora começa a poder avaliar quão grande é o legado espiritual que ele deixou.

N/D
6 Abr 2005

É impressionante ver como as pessoas acorrem aos milhares às igrejas para rezar por ele, cristãos e não cristãos, crentes e não crentes, em todos os cantos da Terra, com a dor estampada no rosto e as lágrimas a cair-lhe dos olhos, como nunca se viu com esta dimensão e intensidade.
O Papa era realmente um homem com um coração do tamanho do mundo, que conquistou os corações dos homens e tocava o além, à procura de um sentido para a vida. Era o apóstolo do mundo.

As pessoas vinham de todo o mundo para estar perto dele, mesmo que o não vissem ou ouvissem.

Desconhecia os pormenores da sua história pessoal, que porventura ajudam a entender melhor a sua personalidade. Afinal, João Paulo II ficou só no mundo quando era ainda tão jovem… Morreu a mãe teria ele cerca de 8 anos, morreram os irmãos, morreu o pai… e ficou só no mundo, sem mais ninguém de família chegada.

Ele confessaria, mais tarde, que essa solidão o fez sofrer mais do que qualquer outra coisa na vida. Qualquer pessoa, no lugar dele, tenderia a cair no isolamento, na depressão, na insegurança, ainda mais na situação social em que a Polónia vivia, primeiro ocupada pela Alemanha nazi e depois anexada pela União Soviética comunista e tendo de trabalhar e estudar em condições duríssimas.

Foi nestas condições de dureza e isolamento afectivo que encontrou a inspiração da fé e a coragem psicológica para lutar contra a opressão social e anti-religiosa do seu país e depois do mundo, contribuindo decisivamente para a queda do regime soviético.

A Polónia teve, nessa altura, líderes religiosos, como o Cardeal Wisinsky, de uma coragem e de uma força que são raros na história. Ele pôde aprender com eles e tornar-se também o homem sem medo, mas prudente.

Foi essa sua determinação espiritual e psicológica que fez dele o líder que a Igreja precisava naquele momento histórico, ao herdar a situação sócio-religiosa instável que transitou do tempo de Paulo VI, após o Concílio e na encruzilhada dos movimentos de libertação, em que a unidade doutrinal se esboroava em estéreis discussões de teólogos desejosos de protagonismo e de poder, de movimentos teológicos de libertação eivados de marxismo espúreo, embora porventura bem intencionados.

Sentindo a família cristã desorientada e insegura, fez-se aos caminhos do mundo e procurou congregá-la na fé, alertando para ilusórios messianismos e abrindo novas esperanças de justiça e de paz para o futuro.

Ao mesmo tempo, assumiu-se como evangelizador do mundo, pedindo a todos os homens que não tivessem medo de abrir os seus corações a Cristo (para a Igreja, a grande questão é hoje a evangelização, mais do que a catequese).

Ele que aprendeu a não ter medo de enfrentar as forças ocupantes das nações e escravizantes do espírito, falava muitas vezes do medo, que dolorosamente aprendeu a superar, para que os outros aprendessem também o mesmo.

Para aqueles que narcisicamente apregoavam os receios de o Papa centrar em si as atenções do mundo, em vez de dirigir as luzes da ribalta para a Igreja (assim dizem), a reacção dos homens após a sua morte veio clara: ficou o seu exemplo de coragem, de lucidez, de desprendimento; agora é preciso continuar o seu legado.

Ele não era um homem que se quisesse tornar vedeta, ocupar o palco; era apenas um líder vigoroso mas humilde, o homem que vai à frente, sem medo, abrindo caminho para que todos o possam seguir em liberdade e empenhamento pessoal construtivo.

Era apenas o líder do grupo. Faltava à Igreja histórica que ele herdou uma liderança forte que a congregasse com coragem e com amor carismático de fé. Não há grupo que subsista sem um líder forte e desprendido que viva para esse mesmo grupo.

Mas a força do líder depende também da força do grupo. Quando um grupo, como a Igreja, consegue gerar assim um líder, então esse grupo tem em si uma energia e uma força poderosa que é preciso descobrir e aproveitar. Portanto, aos pequenos teólogos críticos da sua dita centralização de poder eu digo: não tenham medo que o líder se aposse da energia do grupo.

Ele partiu e a energia que ele libertou aí está, para que todos a saibam desenvolver e aproveitar. Mostrem agora o que valem, ajudando a construir.

Homem de forte personalidade, de profundas convicções, coerente, sempre igual a si mesmo, mas sem rigidez emocional, ao mesmo tempo sensível e determinado, um poeta, um homem de grande capacidade emocional que comunicava com um grande coração.

Sempre determinado, mesmo nos momentos de fraqueza física. Recordo uma situação em que, já para o fim da vida, ia a claudicar e o assistente o apoiou, mas ele reagiu com prontidão e energia, apoiou-se com força no báculo, bateu com ele no chão como a dizer a si mesmo e aos outros que era capaz de se segurar sem ajuda de ninguém.

Que força de ânimo tinha este homem…

Revendo as imagens das suas visitas a Portugal, sente-se que dele emanava uma atracção, uma simpatia, um sentimento de fé, uma alegria de esperança, uma força quase magnética que levava atrás de si multidões de todas as idades, a começar pelos jovens.

Naturalmente que esta força não era apenas dele, mas de tudo quanto ele representava e de tudo quanto as pessoas sentiam no estar com ele e no peso da sua história.

Habituado a sentir-se só, como é próprio de qualquer líder que se assuma (e o Papa tem de ser um líder), ia sozinho ao encontro das multidões de braços abertos. Grande exemplo de maturidade, a sua forma de receber amor era dando-o.

Um homem forte que fez da devoção a Nossa Senhora uma devoção de toda a igreja, de homens e de mulheres e não apenas de devotas mulheres, como dizia um repórter da BBC. Fala da devoção a Maria com a ternura do filho e com a força do grande líder.

Coloca a devoção à Virgem no lugar em que os Apóstolos a colocaram após a ressurreição de Jesus.

Um homem com uma extraordinária riqueza de inteligência emocional que o aproximava dos outros e lhe dava uma capacidade de abordar frontalmente os problemas humanos e políticos.

Um homem com uma extraordinária energia de fé, este homem parece que tocava o além e via mais do que nós conseguíamos ver ou sentir.

Foi amigo do vidente Padre Pio, que muitos anos antes vaticinou que ele iria ser Papa e depois o iria canonizar; acompanhou sempre de perto o fenómeno de Fátima, em cujo 3.º segredo parece ter estado incluído ele próprio e manteve uma relação de proximidade com a vidente Lúcia, que também há pouco partiu deste mundo; viveu numa época de grandes encruzilhadas de sentido histórico do mundo que ele procurou superar e abrir…

Saberia ele mais do que nós quanto à sua partida deste mundo e quanto ao futuro?




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