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Uma história de amor maiúsculo

É um engano pensar que a vida só é grande quando é feita de grandes acontecimentos.

N/D
5 Abr 2005

Não, a vida também é grande quando é feita das pequenas coisas de todos os dias. Direi mesmo que são as pequenas coisas que, ligadas por um sentido de valor, constituem os grandes acontecimentos.
Habituamo-nos a ver a História feita de grandes acontecimentos; mas eles são excepções e, geralmente, só acontecem em momentos de crise e resumem um sentir longamente acrisolado. A grandeza da vida nasce do sentido transcendente que cada um lhe dá, pois é ele que une os factos, lhe dá valor e os projecta para além de si mesmo.

Vem isto a propósito de uma encantadora história que li, há dias, na Internet. Pode parecer que essa história se refere apenas a uma fase mais avançada da vida, mas não sou dessa opinião, porque nada acontece na idade adulta se não for antes preparado.

A facilidade com que, hoje, se casa e descasa, se usa o amor e se deita fora quando já não satisfaz, comprova-o. A história que li é assim:

Um homem, já bastante idoso, dirigiu-se a um Centro de Saúde para lhe fazerem um curativo numa mão, que estava ferida, dizendo que tinha urgência de ser atendido porque tinha um compromisso.

Enquanto o atendia, o jovem médico quis saber qual o motivo da sua pressa e ele disse-lhe que precisava de ir a um Lar de Idosos tomar o café da manhã com a sua mulher, que estava lá internada, porque não tinha ninguém que o pudesse ajudar a olhar por ela. Sofria da doença de Alzheimer, em fase já avançada.

Enquanto terminava o curativo, o médico perguntou-lhe se ela ficaria aborrecida por ele estar atrasado.

– Não, disse ele, ela já não sabe quem eu sou. Há quase cinco anos que ela nem me reconhece.

Intrigado, o médico perguntou-lhe:

– Mas, se ela já nem sabe quem o senhor é, porquê essa necessidade de estar com ela todas as manhãs?

O velho sorriu, deu uma palmadinha na mão do médico e disse:

– É verdade, ela já não sabe quem eu sou; mas eu sei muito bem quem ela é…
Enquanto o velhinho saía apressado, o jovem médico sorria, emocionado e pensava: esta é a qualidade de amor que eu gostaria de ter para a minha vida.

O amor não se reduz ao físico, ao romântico. O amor é aceitação de tudo o que o outro é, de tudo o que o outro foi, do que será, do que já não é…

Acaba de ser divulgado um estudo que mostra que a taxa de natalidade, em Portugal, baixou para metade no decorrer dos últimos 40 anos. Atingiu-se hoje um nível tão baixo na taxa de natalidade que já é insuficiente para manter e repor a população.

Tem de se recorrer à emigração para renovar a população, para além de outras consequências sociais, como a ruptura do ciclo de segurança social das reformas.

A revolução de libertação sexual, que vem dos anos 60, ainda não chegou a um equilíbrio. Esta falta de equilíbrio manifesta-se no comportamento narcisista das camadas jovens e de meia idade e coincide com o aumento do negócio da noite e do sexo.

Chega-se à conclusão que há, hoje, uma sobrevalorização libidinal e uma desvalorização do sentimento de amor e das suas responsabilidades, quando estas duas dimensões deveriam crescer de forma equilibrada.

Em linguagem freudiana, todos nós passamos por um estado narcísico (que é egocêntrico, possessivo, só se vê a si próprio, tal como na lenda Narciso olhava apenas para a sua imagem reflectida na água).

Esta fase narcisista é importante e faz sentido na vida da criança, na medida em que ela, para crescer, precisa de possuir o afecto, a atenção e os cuidados de alguém, precisa de investir afectivamente em si, para mais tarde ser capaz de uma tendência de amor oblativo, de se dar aos outros.

Com o seu crescimento integrado, o jovem devia caminhar para um estado de amor oblativo, para um amor adulto, capaz de ser ele agora a prestar esse carinho e atenção à criança (aos filhos e aos outros) que precisa da sua protecção.

No sentimento egoísta predomina o amor próprio, a posse, a mera procura de prazer e satisfação, gozar o prazer sem assumir responsabilidade da partilha do afecto; na idade do amor oblativo essa tendência narcísica já devia ter sido ultrapassada, tendendo a predominar a ternura e o dom integrado de si mesmo.

Parece que na mentalidade de hoje o sentimento da relação estável de amor funciona assim: enquanto o prazer durar, tudo bem; se há problemas, larga-se e parte-se para outra aventura. Desvaloriza-se o sentimento de responsabilidade afectiva. Vive-se como se o instinto libidinal se tenha separado do sentimento e do afecto.

A partir dos anos 60, com a época da invenção da pílula contraceptiva, procurou-se separar o prazer da sexualidade da responsabilidade da natalidade mas, passados 40 anos, não se conseguiu ainda um equilíbrio entre o impulso libidinal e a responsabilidade do afecto.

O drama da reivindicação do aborto, tal como o abaixamento drástico da taxa de natalidade e mesmo a marginalização dos idosos, enquadram-se neste contexto de praxis ideológica: viver a sexualidade apenas pelo prisma libidinal, sem os compromissos naturais do afecto, numa perspectiva narcisista.

Continuamos à procura do equilíbrio da vivência da sexualidade enquadrada na ousadia generosa do amor.

A história deste velhinho mostra uma doação afectiva equilibrada, mesmo quando da outra parte já mal é capaz de ser correspondido. Na lógica de hoje, a pessoa com doença de Alzheimer devia ser despejada na berma da sociedade, num asilo e o parceiro continuava a sua vida, partia para outra, como se diz na gíria.

Realmente, uma vida sem a imaginação ousada e generosa do amor é como um jardim fechado com muros.

Não faz sentido. É um viver imerso no egoísmo, morrendo de tédio do seu narcísico prazer.




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