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Venda de medicamentos – “caixa de pandora”?

A saúde tem problemas mais graves do que a atacada incidência dos medicamentos

N/D
4 Abr 2005

Foi com surpresa que, na tomada de posse do novo governo português, foi apresentada como grande medida (quiçá fracturante) a venda de medicamentos sem necessidade de receita médica de forma menos convencional, concretamente em grandes superfícies comerciais, vulgo hipermercados. Numa avalanche de intenções surgiram logo outros interessados em entrar no “negócio” (pois de dinheiro mais do que dos interesses das pessoas se trata): primeiro as estações de serviço com a venda de combustíveis e mais recentemente a associação de restaurantes.
Ainda há dia tinha referido – mesmo que em jeito de brincadeira mais do que em premonição! – ao proprietário de um restaurante: «quando é que vão começar aqui a vender medicamentos»…

Apesar do sector – há quem o designe antes de “lóbi” – farmacêutico ter forte implantação no tecido social português e grande poder no quadro económico do país, esta medida pareceu, de facto – como diziam os responsáveis do sector quando a medida foi anunciada – uma “cortina de fumo”, pois a saúde tem problemas mais graves do que a atacada incidência dos medicamentos. Com efeito, as consultas e respectivas custas, as comparticipações e adiados atrasos, os cuidados primários e secundários, a acessibilidade aos médicos… são muito mais urgentes, envolvem mais risco de decisão e, certamente, darão mais resultado, embora só a médio ou a longo prazo…

Não temos visto, no entanto, ser abordado por parte dos educadores a prevenção sobre a possibilidade de menores terem acesso a medicamentos sem receita médica, pois nalguns casos poder-se-á confundir a venda livre com uma certa liberalização indiscriminada: não é a mesma coisa vender um comprimido para aliviar uma dor de cabeça e permitir que toxicodependentes possam gerar compostos para alimentar a sua doença; não é a mesma coisa permitir o acesso a medicamentos analgésicos e caucionar certos “fomentadores” da cultura anti-vida, como a pílula do dia seguinte.

Parece que a medida anunciada pelo governo teve tanto de ser proposta a destempo quanto de tentativa para iludir quem julga que vai passar a pagar menos pelos medicamentos, pois, como negócio que é (de verdade), haverá sempre uma margem de lucro que deverá ser equilibrada entre os laboratórios, os vendedores (seja nas farmácias, nos hipermercados, nos postos de combustível ou nos restaurantes), os intermediários… e o público é que pagará!

Estaremos diante de uma caixa de pandora, cujos cambiantes só servem para confundir, deixando tudo na mesma ou ainda pior do que quando se tocou no problema? O tempo se encarregará de esclarecer!




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