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Reaprender a ver o mundo

Aos cristãos cabe o papel de mostrar a alegria que têm de ter fé e que ter fé não é contrário à alegria de viver

N/D
3 Abr 2005

“A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”. (Merleau-Ponty)
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, dance, ria e viva intensamente antes que o pano desça e a peça termine sem aplausos” (Charlie Chaplin).

Esta conclusão da história do cego de Paris faz apelo a uma nova forma de olhar a vida, a uma nova forma de viver o presente, de ver o mundo. Afinal, se não viver o presente, passa ao lado da vida, porque o passado já não existe e o futuro ainda não chegou. Mas será correcta esta forma de ver o mundo, de viver a vida?

Alguns dirão que é um apelo amoral semelhante à mensagem do “carpe diem”, viver cada momento como se ele fosse o último sem outra preocupação e outros princípios orientadores que o princípio do prazer. No polo oposto, está a outra filosofia de vida que nos propõe viver segundo ideais que adiam a felicidade para além dos limites desta vida. São dois modelos de opostos que tanta tinta continuam a fazer correr.

Viver a vida ou entender a vida? Um situa-se no imediato, no deixar acontecer, no tirar partido do prazer de viver; outro acredita que a vida tem de ser vivida conforme princípios que dimanam do modelo cristão, sacrificando o prazer imediato à esperança de prazer da realidade futura.

Talvez estes dois modos antagónicos de olhar a vida se tenham extremado demais. Talvez alguma tradição cristã tenha dado de si uma imagem pesada que não seja verdadeiramente cristã face ao epicurismo apelativo de sempre.

Talvez se tenha visto mais a cruz de Cristo do que a sua ressurreição e a liberdade do seu amor (Lee Yarley, Prof. de Religião da Stanford University, diz que o cristianismo dos cristãos americanos só vai até à crucificação e esquece tudo o que se passou depois, só vêem a bondade destruída, mas não percebem como ela continua a viver, o que faz deles pessoas mais preocupadas com a sua autoestima).

Talvez alguns teólogos tenham feito uma leitura historicamente menos correcta dos chamados conselhos evangélicos, centrada apenas na base da teologia da cruz. Talvez, por causa disso, se não deva anatematizar quem apresenta novas hipóteses de leitura das regras fundamenteis da procura de identidade do amor cristão. Afinal, há tantas coisas que não sabemos ou que apreendemos de maneira imperfeita.

A verdade vai-se revelando e aprofundando. Não é tarefa só nossa ou dos que nos precederam. A procura vai continuar. Para sermos sinceros, uma religião triste e cheia apenas de medo do castigo de Deus não é capaz de seduzir o homem livre do ocidente. Isso vê-se. E não adianta nada lamentar o facto.

Ter princípios e ter uma identificação que nos eleva na condição humana faz parte da cultura cristã, viver a vida apenas ao sabor do impulso do prazer também se deve tornar entediante, porque fecha o homem nos limites do seu narcisismo e depressão existencial. Como resolver o dilema: viver a vida ou entender a vida?

Talvez reaprender a ver o mundo possa ser um caminho de nova síntese. Aos cristãos cabe o papel de mostrar a alegria que têm de ter fé e que ter fé não é contrário à alegria de viver. Talvez haja aspectos da vida que se diabolizaram e ainda não foram repensados.

Cecília Meireles escreveu que “há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes nos deixam; mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida e nos marcam para sempre”. Referia-se, claro está, ao contágio espontâneo da simpatia e do amor, na bonita expressão popular, ao encontro de “almas gémeas”. Mas talvez se possa ir mais longe e dizer que as pessoas que vivem com integridade e com sentido dos outros se tornam contagiantes.

Não é preciso ser bonito para ser simpático. Para elas, na sua simplicidade, há uma espécie de fusão entre o afectivo e o racional, uma congruência entre o que pensam e o que dizem. Tornam-se pessoas carismáticas. Vivem o presente com alegria, seguros da sabedoria do passado, saboreando o presente e fiéis ao sentido que dão à sua vida. Sabem em quem acreditaram.




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