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Chover no Molhado (59)

O Mundo, o profano, o secularizado, têm necessidade de Deus

N/D
2 Abr 2005

Sobre o alicerce da divinizada autonomia da Razão e, com esta, o equilíbrio, a medida, a proporção, levanta-se um novo muro, o muro das unilateralidades, por sua virtude desmembrador da unidade no todo.
Do lado de cá do muro, do lado profano da Razão, em subserviências de beija-mão à ciência, à técnica, à indústria, economia, evolução e revolução, pendem da Razão o prestígio, o poder, a riqueza, o progresso e a libertação. Do lado de lá, do lado sagrado do muro, a teologia, a fé e a moral cristãs, observam, com tristeza, as expansivas profanações da filosofia, da Razão, do direito natural.

A fé na ideia profana de um progresso libertador, progresso sem fim, torna-se uma verdadeira religião. E a sociedade, optimizada com acenos deslumbrantes de melhoria de qualidade de vida e de domínio da natureza, deixa-se galvanizar por esta.

E assim, em seu favor, se substitui a vigente fé no Deus único, considerado daqui para a frente como rival do homem ilustrado. Um rival, portanto, a abater.

A unilateralidade é aquele vírus que, ansioso de se autovalorizar, autojustificar e de se autoprestigiar, aposta nas forças da desvalorização, rejeição e destruição daquele que rivaliza consigo mesmo. Sepulta no anonimato o que lhe faz frente. É despótico, intransigente e duro. Nasce connosco e vive da nossa vida. Ora está vivo e vigoroso; ora está empedernido e sonolento. Mas sempre vigilante e pronto a atacar.

Que se segue, então, da unilateralidade desembainhada pelo vírus sagrado da teologia, da fé e da moral cristãs? Seguem-se centralismos de poder, proibições, ameaças e intolerâncias. Recorre-se a censura, ao Índex e à Inquisição. E, como aperitivo, os correctivos corporais.

Que se segue, então, da unilateralidade desenrolada pelo vírus profano da Razão da ciência e do progresso? Seguem-se, a partir de 1914, as duas grandes guerras mundiais. Ateia-se, ferozmente, o holocausto. Galopa, sem freios, o cavalo da violência. As nações ameaçam-se, reciprocamente, de destruição. Planta-se o terror.

Proliferam o crime, o roubo e a insegurança. Lavra o desespero interior. Teme-se o dia de amanhã.

A fé na prosperidade progressiva incentiva a concorrência. A concorrência gera competição e esta acorda a inveja, a violência, o egoísmo, o conflito, a luta.

O mais hábil e astuto, o que melhor sabe organizar-se e adaptar-se ao meio ambiente, é o dominador. O dominador vence; o vencedor subjuga o outro.

Estamos no domínio de uma prosperidade fechada, unilateral, individualista. Estamos no coração e na mente de uma prosperidade, cuja mãe é a necessidade de sobreviver.

A sua ordem, justificada com coerência pela Razão, é esta: vive para ti.

E agora depara-se com este cenário:

– A fé na Razão, na ciência e no progresso, parece degenerar na desconfiança, na dúvida, na incerteza.

– A esperança de que as fatalidades seriam vencidas pela religião do progresso, cai no desespero.

– O optimismo na vitória sobre as necessidades que subjugam a condição humana, afoga-se no pessimismo e na derrota.

Afinal o Mundo, o profano, o secularizado, têm necessidade de Deus. Têm necessidade do Sagrado. E Deus, em nós, e em nós o sagrado, tem necessidade do Mundo, do profano, do secularizado.




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