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A maior associação do mundo

Uns são mais pragmáticos e outros são mais criativos, uns são mais organizados e outros são mais dispersos; uns são mais optimistas e outros são mais dados à depressão; uns são mais comunicativos e outros são mais introvertidos… Se pudéssemos ter todas as qualidades, era muito bom. Mas, não; somos diferentes.

N/D
2 Abr 2005

O que não nos dispensa de procurar melhorar o nosso lado mais fraco e nos deve fazer pensar que precisamos uns dos outros. Vem isto a propósito de uma ficha de trabalho que encontrei, há dias, já um pouco amarelecida pelo tempo. Pois, nessa ficha anotei dois pensamentos a que ainda hoje atribuo a mesma actualidade: um de Binet e outro de Baudelaire.
O de Binet, psicólogo francês mundialmente conhecido pelo seu teste de avaliação de inteligência da criança, diz assim: “A maior associação do mundo é a dos descontentes”. O de Baudelaire, célebre es-critor francês, diz, a respeito do mesmo tema: “Parece que só estamos bem onde não estamos”.

São duas finas observações de psicologia introspectiva que estão para além dos anos em que os homens vivam. A verdade é que nunca estamos contentes com o que temos. Procuramos sempre mais e melhor. E ainda bem que assim é, senão o mundo estagnava, ainda hoje estava na idade da pedra. Se não tivéssemos consciência crítica das nossas limitações e esse apelo íntimo de procurar sempre mais além do que sabemos e temos, ficava tudo como está, não tínhamos necessidade de aprender, bastavam os instintos de sobrevivência para guiar o nosso comportamento.

Claro que, no reverso da medalha, o nosso existencial descontentamento também tem um preço, sofremos por não conseguir o que desejávamos e, às vezes, a frustração pesa tanto que até nos vence. Mas esse aguilhão é também o nosso estímulo. Somos seres a caminho.

Em relação ao preço do nosso descontentamento, podem acontecer os mais diversos cenários: há os que se revoltam, porque consideram que os outros é que são os responsáveis por isso; há os que sofrem em silêncio resignados com a sua pouca sorte; há os que lutam sem perda de ânimo para conseguirem o que desejam; há os que desanimam e ficam pelo caminho a lamentar a sua falta de sorte; há os que se metem na droga ou na bebida para compensar a sua frustração; há os que ficam deprimidos e se tornam dependentes da medicação; há os que perdem mesmo a vontade de viver, se sentem sós, se suicidam; há os que, ajudados pela psicoterapia, conseguem descobrir a luz da esperança para além dos muros altos do horizonte da depressão e se levantam; há os que tudo sofrem resignadamente como se fosse um castigo enviado por Deus.

Há mil e uma formas de ver e de viver o tão comum fenómeno do nosso descontentamento existencial, que mais não é do que uma das faces da nossa condição humana de seres limitados.

Uns pegam nesse descontentamento e fazem dele o motor da sua motivação para ir sempre mais além; outros não encontram essa lucidez emotiva e transformam-no em sofrimento para si e para os outros.

No meio deste cenário, que faz parte da história humana, surgiram instituições que procuram cuidar do nosso descontentamento: as religiões procuram descobrir neste descontentamento o sentido de um apelo divino a caminhar para a perfeição; as psicoterapias procuram ajudar, por abordagens diferentes, a tomar consciência do seu mal estar e enquadrá-lo, transformado, no sentido construtivo da sua felicidade; a ciência assume-o como um apelo a descobrir as leis do funcio-namento das coisas, para poder tornar o mundo melhor para todos os homens; os pensadores políticos entendem-no como um apelo a criar sistemas que tornem o mundo mais justo e onde o sofrimento humano seja minorado.

De vários ângulos, todos lhe procuram encontrar um sentido construtivo nesta vida ou mesmo para além desta vida.

O certo é que todos somos uns eternos descontentes, faz parte da nossa condição de finitude humana, todos pertencemos a esta grande irmandade. Quem disser o contrário mente. Somos a maior associação do mundo. E não vale a pena ter vergonha de o assumir. É mesmo assim.

A diferença está no modo como encaramos e gerimos esse descontentamento. Aí, sim, é que há diferenças. É por isso que aprender a gerir o descontentamento existencial é uma arte muito importante. Aqueles que forem capazes de o transformar no motor da sua esperança e do seu crescimento, ou de lhe dar um sentido de apelo divino (sentido religioso), ou de o interpretar como um apelo de procura da investigação científica, ou de lhe dar um sentido de enriquecimento afectivo e de qualidade de vida, ou um sentido de optimismo e abertura à inovação… esses são, de entre os homens, os nossos heróis e os nossos exemplos. Louvor a todos eles! Souberam transformar um sentimento de limitação num apelo de crescimento.

Os que não forem capazes de ver para além dos muros da sua depressão e se deixarem abater ou então procurem alienar a dor do seu descontentamento através da droga, da bebida, da alienação da indústria do prazer sexual (todos eles negócios que hoje dão milhões), esses precisam da ajuda de todos nós para ver se conseguem descobrir que há mais sol e há mais mundo para além dos horizontes escuros das noites da sua infelicidade. E que também eles podem ser felizes…

Restam outros, que são presas fáceis dos negociantes do descontentamento alheio e andam por aí a vender promessas irreais que nem para si saberiam cumprir. São os pseudo-bruxos das adivinhações, dos tarots, das astrolo-gias, das cartas, dos búzios…

E são também outros, que negoceiam nas franjas da política e pretendem transformar o descontentamento dos outros em energia de luta social e política sem objectivos: apenas se beneficiam a si mesmos. O seu objectivo não é resolver problemas; é apenas protestar. E lá vão os descontentes a desfilar, protestando, alienados pela catarse teatral e esperando que a essa pseudo-liturgia de teatro social corresponda a realização dos seus desejos.

Tenho pena dos que assim se deixam enganar. O seu lamento é muitas vezes justo; mas os que vivem desse negócio que explora a dor dos outros não me merecem respeito. E, hoje, há tantos barões sociais que vivem disso…




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