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Referendo II

A pressa do novo referendo sobre o mesmo tema, pedindo ao povo uma resposta que ele já deu é, no mínimo, bizarra. Para não dizer afrontosa. O povo que aclamou e reclamou é o mesmo. E não é amnésico

N/D
1 Abr 2005

Em chegando Abril, reaviva-se em nós a memória festiva da liberdade conquistada. Coadas as falácias de alguns heróis, ninguém pode retirar ao povo a autoria desse bem maior, desvanecido durante décadas entre sombras e brumas.
A liberdade tem o preço incomensurável da dignidade de um povo.

O povo foi fazendo diferentes escolhas políticas para o poder local, autárquico, legislativo, presidencial. Não consta, ao longo destes trinta anos, qualquer reclamação substantiva ou qualquer viciamento significativo no manejo das urnas.

Aconteceu também um referendo sobre o aborto. Perguntava assim: «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»

Mais de cinquenta por cento disse “não”. Nem contentes nem descontentes questionaram a legalidade ou a autenticidade da resposta.

Do segundo referendo, sobre regionalização, ninguém fala.

Paulatinamente se foi lançando a ideia de revogar a decisão popular do primeiro referendo porque o seu resultado não agradava a alguns. Feriados, muito sol nesse Junho de 1998, têm sido algumas das razões apresentadas para tal.

Nunca foi nem é explicado o que aconteceria a tal referendo se o resultado fosse o oposto.

Há uma convergência curiosa de subtilezas: discursos de aquém e além-mar chamando estúpido e subdesenvolvido ao povo, barcos que quiseram remir as aniquiladas mulheres portugueses com um “maternalismo” colonizador; anúncios públicos em televisão de medicamentos abortivos; cenas de pavor ridículo com olhar sobranceiro sobre a mulher de berço luso, como a mais vilipendiada das filhas de Eva.

Tudo isto se tolerou com pusilanimidade cobarde, em nome da liberdade… que prezamos.

Não nos parece tão claro que o actual governo, eleito quase por aclamação – e reclamação – dê a entender que o Referendo II sobre o aborto ocupa uma prioridade de fundo.

a Assembleia da República, já passa à frente dos muitos problemas que verdadeiramente atormentam os portugueses: a recessão económica, a fome real; as dezenas de empresas falidas; os muitos milhares de desempregados; os doentes que continuam na eterna lista de espera; os analfabetos que não diminuíram com a liberdade; os velhos e doentes que apodrecem se lhes faltar a caridade alheia; as aldeias que se transformam em desertos com casas fantasma; a insegu-
rança alarmante em cidades e aldeias…

E um rol de urgências que o povo sente e reclama. E que projectou na escolha deste governo.

Por isso, a pressa do novo referendo sobre o mesmo tema, pedindo ao povo uma resposta que ele já deu é, no mínimo, bizarra. Para não dizer afrontosa. O povo que aclamou e reclamou é o mesmo. E não é amnésico.




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