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Religião, tolerância e paz

Quando formos capazes de aceitar as diferenças com que a Divina Providência marcoua humanidade, estarão criadas as condições para que a paz possa finalmente triunfar

N/D
31 Mar 2005

No início desta semana, foi notícia a visita de José Mourinho a Israel, onde permaneceu dois dias a convite do Centro Shimon Peres para a Paz.

A deslocação do treinador português ao serviço do Chelsea fez parte de uma série de iniciativas, integradas num projecto dinamizado pela dita instituição, que visam promover a paz entre israelitas e palestinianos através de escolas de futebol.

Ontem, foi também notícia (cf. última página do PÚBLICO) o “feito” inesperado de Abbas Suan, futebolista árabe da selecção de Israel e autor do golo do empate desta equipa com a República da Irlanda, que permitiu àquele país manter vivas as esperanças de qualificação para o Mundial da Alemanha de 2006.

Assobiado e apupado até então pelos israelitas, tornou-se, de súbito, um “herói de Israel”.

Ora, um e outro factos servem para confirmar que o desporto pode e deve ser utilizado como instrumento da paz e da compreensão mundiais, tal como, aliás, tive já ensejo de defender, há alguns meses atrás, nas colunas deste jornal, a propósito do XXV Dia Mundial do Turismo.

Mas não é exactamente sobre este tema que hoje pretendo escrever. Na verdade, a evocação daqueles dois acontecimentos serve, apenas, de ponto de partida para uma breve reflexão, associada à Páscoa que acabamos de viver, sobre o valor central do perdão que o Senhor Ressuscitado pregou e praticou entre os homens do seu tempo e sobre o papel fundamental das religiões – de todas e não apenas da Católica – como via privilegiada para a Paz.

O amor que Cristo nutre pela humanidade foi por Ele lapidarmente expresso na frase que dos Seus lábios soltou quando estava prestes a expirar: “Perdoais-lhes, Pai, que não sabem o que fazem”.

Efectivamente, só um Ser eminentemente bom e misericordioso é capaz de responder aos seus algozes, aos seus julgadores e aos seus inimigos com um acto de semelhante ternura – o perdão.

Todavia, importa recordar que nem sempre a Igreja teve a santidade e a grandeza de imitar o gesto do seu divino Mestre e que, da parte dos perdoados e dos seus descendentes, também não houve a humildade de reconhecer a culpa pela morte de Jesus de Nazaré, independentemente da convicção que sobre Ele tivessem ou tenham ainda. Bem pelo contrário, cristãos e judeus alimentaram durante séculos e séculos um profundo ódio e desprezo recíprocos, sentimentos que levaram, inclusive, a perseguições, guerras, crimes e outros actos de radical intolerância, incompatíveis com os valores espirituais e princípios doutrinais defendidos por ambas as crenças.

E isto com a agravante de uma e outra dessas religiões terem uma herança comum.

O mesmo se diga do islamismo, que partilha de idêntica herança, relativamente às demais religiões, como exuberantemente é demonstrado pelos acontecimentos da história mundial, designadamente da contemporânea.

Em face disso, muito mais do que aos desportistas ou aos amantes do futebol, cabe aos religiosos e leigos de todas os credos encararem com humildade e sentido crítico o seu relacionamento recíproco e promoverem o diálogo ecuménico e o conhecimento mútuo.

Se assim o fizerem, como é seu dever, estou absolutamente convencido que a tolerância inter-religiosa representará um poderoso veículo para a pacificação e compreensão mundiais.

Quando formos capazes de aceitar as diferenças com que a Divina Providência marcou a humanidade, estarão criadas as condições para que a paz possa finalmente triunfar.




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