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Viver hoje a Páscoa da Ressurreição

Vários liturgistas alertam para o facto de que a Páscoa, a festa por excelência dos cristãos, que se prolonga por sete semanas, pois agora já não falamos de domingos depois da Páscoa, mas de domingos de Páscoa, corre o risco de não ser vivida tão plenamente como daria a entender a preparação feita com o tempo de Quaresma.

N/D
30 Mar 2005

A Páscoa é a oferta que Cristo faz, livre e amorosamente, da sua vida ao Pai para reparar a nossa desobediência. O Pai, comovido, aceita o sacrifício do seu Filho. E a Ressurreição de Cristo não é senão o abraço do Pai a Cristo, pelo qual acolhe a sua oferenda em favor de todos os homens.
Como fruto deste desígnio de salvação, a humanidade é reconciliada com Deus por meio de Cristo: somos filhos no Filho.

Já não há qualquer véu que nos oculte Deus. Na morte de Cristo, descobre-se o mistério escondido no Antigo Testamento. Deus já não tem segredos para connosco. O Coração de Cristo revela-nos a intimidade de Deus: «A vós já não vos chamo servos, mas amigos; porque tudo o que ouvi a meu Pai, vo-lo dei a conhecer» ( Jn, 15, 15).

Viver como ressuscitados poderia resumir-se em três breves frases de João Paulo II, ele mesmo exemplo vivo de uma vida iluminada e vivificada pela fé e esperança na ressurreição.

Assim o afirma Olegário Cardedal em artigo recente em “El País”: «três palavras suas caracterizam a sua pessoa e a sua missão: Não tenhais medo, que pronunciou no dia da sua eleição, recolhendo-as dos lábios de Cristo dirigidas aos apóstolos; Mar adentro, expressão de uma responsabilidade cristã, confessadamente assumida.

Temos que penetrar bem dentro na História, na razão e na graça, confiados em Quem nos chama, guia e sustém. E finalmente a palavra mais sagrada de todo o apóstolo: Abri as portas a Cristo.

Para elas viveu e até ao fim as acreditou num exercício pastoral que funde vida pessoal, missão eclesial e mistério divino.

Cumpriu tal mistério divino como pessoa e não como personagem, na doença e na velhice, dignificando assim, num tempo em que a juventude se afirma como idade absoluta e normativa, ao mesmo tempo que aumentam os velhos, a doença e a velhice, a fidelidade e a confiança na Igreja para viver do Espírito, que é quem realmente a sustenta».

Recentemente, celebramos o 1.º aniversário do 11 de Março em Madrid, com os 192 mortos provocados pelas bombas terroristas colocadas nos comboios que se dirigiam das redondezas para a capital de Espanha.

Muitos dos familiares das vítimas e muitas vítimas dos atentados reagem ainda com ódio para quem julgam que foram os principais culpados. Outras vítimas reconhecem que o acto mais inteligente é perdoar.

Maravilhosa, para mim, foi a reacção de Fausto Marín Sánchez, pai de uma das vítimas dos atentados, em carta que “Alfa y Ómega” de 10 de Março publica. Desde logo realça-se o facto de ele ser pai de 7 filhos.

Mas a fé e esperança que deposita na ressurreição – extensiva, aliás, a toda a sua grande família – é um belíssimo testemunho do que pode fazer nos cristãos o mistério central da sua fé.

Eis a carta.

«Querido Vicente:
Recebe um beijo muito forte. Sei que Deus te quer e te mima mais do que a nós.
Um ano sem nos vermos fisicamente! Que longo e que breve!

Embora falemos todos os dias, muitas vezes, não quero deixar-te sem umas letras nestas datas e recordar-te o mais importante que nos aconteceu este ano, e perguntar-te, como qualquer pai: «Vicente, meu filho, como te encontras no céu?

É mesmo verdade que és feliz? Tu acabaste por ganhar! Já disfrutas da presença de Deus! Tenho inveja de ti!

De nós, te direi que mamã continua com as suas coisas e com a tua ausência. Está a tornar-se um pouco orgulhosa – coisas de mãe – porque me diz: «O meu filho está no céu. Quando nós formos, Vicente virá receber-nos».

A Janyn, Maxi e Ana, fizeste-las desportistas. Participaram na São Silvestre.

Fizeram-no por ti e em tua memória. Júlia, a mais pequenina, quando perguntamos por ti, olha e assinala para o céu.

Que queres que te diga de António? Sei que todos os dias falais… Ele, António, quando falamos, está convencidíssimo de que estás melhor do que nós.

Humanamente, quando sente e vive a tua ausência, graças a Deus, tem Ima e as suas filhas, Andreia e Marta, para apoiar-se.

Vicente, viste Fausto no Monte do Gozo, em Santiago, dando o seu testemunho entre três mil jovens e os senhores bispos da Conferência Episcopal? Viste-o também em Loreto, na Itália?

Fausto, por ti, seu irmão, quer ser reflexo da fé e esperança que temos em Cristo ressuscitado. Estás com ele e ajuda-lo! Todos os dias falamos de ti e sabemos com certeza que disfrutas de Deus. Temos isso muito claro!

Recordo quando comentávamos, antes de partires, a grande sorte que teve em conhecer a Maria, que segue na sua linha. Ajuda-o. Vive essa fé e essa esperança juntamente com Fausto.

Obrigado, Vicente! Desde que foste, fizeste-me forte. Ris-te? Todos recorrem a mim, que era o mais queixinhas.

Por fim, te direi: apesar da nossa dor, continuamos com as nossas reuniões familiares, onde continuas a ter o teu lugar, onde falamos e rimos, sobretudo quando recordamos a tua vida, os teus comentários, as tuas chalaças.

Todos coincidimos em afirmar que estás melhor do que nós. É que no-lo transmites e nós o palpamos!

Vicente, deixo-te. Já falta menos um ano para nos juntarmos e vivermos a nossa ressurreição com Cristo.

Apesar da minha fé e esperança, continuo e continuarei… a chorar.

Beijos do teu Pai».

De facto, quando se crê a sério na ressurreição, a vida transfigura-se e interpela.
Vale a pena viver em pleno a Ressurreição.

Todos os dias!




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