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Era uma vez um Campeonato

No número 821 dos Postais da Arcada, Dinis Salgado lamentava o pouco cuidado que se dá à língua portuguesa e referia-se, concretamente, aos nomes que dão nome às ruas, os quais constam nas respectivas placas sem o devido acento tónico. Descuido? Ignorância? Tanto faz?

N/D
30 Mar 2005

A nossa língua é difícil, todos o sabemos, mas também há quem lhe dê muito pouca atenção.
Lembro-me de, há muitos anos, haver na RTP (o único canal de TV de então) o programa “Charlas Linguísticas” da autoria de um padre que era uma sumidade. Até foram publicados, depois, uns pequenos opúsculos.

Muito mais tarde, já depois do 25 de Abril, houve o programa da D.ra Edite Estrela que também era muito interessante. E, aqui há tempos, apareciam na TV umas palavras escritas com erros propositados e, logo depois, a correcção.

Estes bons exemplos constituem, infelizmente, a excepção à regra que é a pouca preocupação por parte da televisão que temos em relação à língua portuguesa. A ditadura das audiências obriga a outras prioridades.

Mas, em 2004, houve um feliz acontecimento: o Campeonato Nacional de Língua Portuguesa. Foi organizado pelo grupo Impresa de parceria com a SIC Notícias que, como de costume, não deixou o crédito por mãos alheias. Teve o patrocínio do BPI, da Fundação Calouste Gulbenkian, do Expresso, Jornal de Letras, etc.

Diversos jornais, o Diário do Minho também, publicaram o teste que daria acesso à entrada naquele campeonato. Pelo teste, via-se logo que não iria ser “pêra doce”. Iria exigir muita investigação, muito estudo e muito trabalho.

No sábado de Carnaval de 2005, realizou-se a final que foi transmitida em directo pela SIC Notícias. Eu vi, gravei, gostei e achei uma ideia brilhante.

A final teve lugar num auditório da Fundação Gulbenkian repleto de concorrentes, entre eles muitas figuras públicas dedicadas às letras e à cultura. No palco estavam os quatro elementos do júri, uma verdadeira elite.

Não sei se interessa eu estar a contar aquele evento mas, por ser sábado à tarde e, ainda por cima, de Carnaval é natural que tivesse passado despercebido a muitas pessoas. Li, depois, que a SIC Notícias tinha atingido, nessa tarde, o pico de audiências.

A apresentação do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa esteve a cargo da jornalista e apresentadora Bárbara Guimarães. “Tropeçou” uma ou duas vezes e numa delas, é a tal coisa, a palavra “oxítona” não estaria acentuada e ela leu-a como se fosse grave.

Senti, assim, um arrepio.

Não, não é uma palavra de uso comum e a Bárbara Guimarães logo corrigiu. Mas foi pena!

A final constou de um ditado destinado a três faixas etárias diferentes sendo o grau de dificuldade adequado a cada uma delas. E foi pelo ditado que os concorrentes, mais de dezasseis mil, começaram a ser eliminados.

Pelo que vi, todo o público e todos os espectadores (os tais dezasseis mil) foram convidados a fazer o ditado. Eu também o fiz.

A Bárbara Guimarães ditou muito bem, o que lhe valeu um elogio do presidente do júri. Feita a correcção no quadro que estava no palco (aliás o palco estava giríssimo) eu verifiquei que tinha dado um erro: a palavra “rebuliço” ali, naquele contexto, era com “u” e não com “o”. Mas fiquei “encantada” quando o júri anunciou que não havia nenhum ditado sem erros.

E se lá estavam linguistas!!!

O ditado continha duas palavras que eu desconhecia completamente: tergiversações e procrastinar. A primeira significa desculpas, evasivas, acto de tergiversar, ou seja, de hesitar, voltar as costas. O significado da segunda é adiar.

Foi no dicionário que tenho em casa, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que encontrei as ditas palavras e o seu significado.

Finalmente, foram atribuídos os prémios aos três vencedores: uma viagem ao Egipto com uma visita à célebre biblioteca de Alexandria, agora totalmente reconstruída e com um recheio que ultrapassa os quatro milhões de livros.

Ficou a promessa de uma nova edição, ou por outra, da continuidade do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa.

Tenho pena que estas coisas já me sejam vedadas mas prometo que, para o próximo campeonato, irei incentivar a participação da gente nova e com ganas de saber. Até porque não vi lá ninguém da nossa cidade e Braga tem obrigação de, nestas coisas, não tergiversar.




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