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Os genéricos

O Presidente da República já chamou a atenção para a necessidade de se receitarem mais remédios genéricos, mas parece que, o pedido caiu em saco roto

N/D
29 Mar 2005

Os remédios são caros para a maioria dos portugueses. Muitos dos portugueses precisam de remédios. Eis a fatalidade do óbvio. As classes mais pobres não têm possibilidades de os comparar. E os remédios são coisas de que se não pode prescindir ou substituir. Nesta caçada o gato não substitui o cão. Os portugueses procuram a saúde como dantes não o faziam.
Basta olhar para os consultórios médicos e/ou farmácias e ver como estão sempre cheios. Os portugueses deixaram de ser pobre gente sem deixarem de ser gente pobre. Entraram, deste jeito, numa desventura quiçá ainda maior: tomaram consciência da sua pobreza.

Por isso é que há anos a esta parte aqui escrevi a favor das receitas médicas poderem contemplar o maior número possível de remédios genéricos: está cientificamente comprovado, que têm a mesma eficácia dos de marca e são mais baratos. Ainda hoje pensamos da mesma maneira. Razões várias ditam a resistência de alguns médicos: hábitos de receituário, confiança nos laboratórios, eficácia comprovada com os remédios com que trabalham, etc. etc. Os velhos hábitos devem perder-se, quando os novos, ou são melhores, ou não prejudicam os antigos. Para que conste, este apontamento não é um ataque à classe médica como quiseram acusar-me na altura.

Tenho antigos alunos que são hoje médicos distintos que muito prezo, amigos médicos que muito venero e familiares que também são médicos. Não se trata de ofender quem quer que seja, muito menos uma classe profissional de tanta valia; trata-se, isso sim, de não compreender a recusa de alguns médicos em não receitarem genéricos; outros já o fazem com perfeita consciência de que não colocam em perigo a vida dos seus doentes.

As receitas de genéricos em Portugal, ainda são uma ridicularia comparadas com as receitadas noutros países, bem mais ricos e com doentes com melhores posses do que os nossos. Dizem que é já algo significativo o número de médicos que receitam genéricos, mas esta expressão, ainda não passa de pequenas gotas. Necessitamos de muito mais. É que não são apenas os portugueses pobres que beneficiam destes genéricos, é também um país pobre, Portugal, que deixaria de pagar fortunas enormes aos laboratórios.

Ora, estes dinheiros assim poupados com os genéricos, poderiam ser canalizados para outros benefícios de saúde. O sr. Presidente da República já chamou a atenção para a necessidade de se receitarem mais remédios genéricos, mas parece que, por hábitos de actos médicos já referidos, ou por quaisquer outras circunstâncias que nos escapam, o pedido caiu em saco roto. São muito poucos os médicos que permitem a substituição. Ostensivamente alguns trancam, por sistema, a possibilidade da substituição.

O povo acha estranha esta resistência; igualmente não posso furtar-nos à estranheza. Coisas de quem tem por hábito pensar com a cabeça que tem e não com a cabeça que lhe fazem. Já temos ouvido a doentes pobres, na sala de espera, dizerem isto: “este doutor não deixa substituir e que jeito isso me fazia …”! Pois claro que fazia jeito às suas pequenas ou nulas disponibilidades financeiras para comprar os remédios da receita. Quantas vezes não mandam aviar toda a receita! Perguntem às farmácias!

E se os remédios fossem mais baratos? O que peço a todos os médicos, ex-alunos, familiares e amigos, e tantos que a estes se queiram juntar, – a boa vontade é a essência do voluntariado -, é que depois de tentar salvar o doente – como lhe exige o juramento de Hipócrates de Cós – tenham a consciência clara das condições económicas dos seus consultados.




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