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O raio verde

Na lista de “inventos” que Júlio Verne, de algum modo, antecipou, está, por exemplo, o foguetão, o submarino, a televisão ou o videofone. Mas está também o “raio verde”

N/D
28 Mar 2005

Mesmo os mais distraídos já poderiam ter reparado que se estava a aproximar uma efeméride qualquer relacionada com Jules Verne.
Números especiais de inúmeras revistas, colecções de livros (na quarta-feira, o “Público” ofereceu aos leitores o livro Cinco Semanas em Balão, o primeiro volume de uma colecção intitulada “Planeta Verne”), reedições de obras esgotadas há muito, exposições e as demais iniciativas que indicam que se está a comemorar alguma data importante têm servido para assinalar o aniversário da morte do escritor francês, ocorrida em Amiens no dia 24 de Março de 1905.

Cem anos depois, na quinta-feira passada, a imprensa portuguesa não se esqueceu de Júlio Verne (ao contrário do que é habitual, aportuguesou-se o nome).

O “Diário de Notícias” dedicou-lhe duas páginas inteiras da secção de cultura; o “Jornal de Notícias” fez o mesmo, mas acrescentou um grande retrato do escritor na primeira página; e o “Público” evocou a efeméride num “destaque” de sete páginas e em metade da primeira página.

Os diversos trabalhos jornalísticos serviram para enfatizar a capacidade visionária do autor de Cinco Semana em Balão, Da Terra à Lua, Vinte Mil Léguas Submarinas ou A Volta ao Mundo em 80 Dias.

Na lista de “inventos” que Júlio Verne, de algum modo, antecipou, está, por exemplo, o foguetão, o submarino, a televisão ou o videofone. Mas está também o “raio verde”.

Os jornais portugueses não se lhe referiram, mas isso, obviamente, não significa que ele seja desprovido de importância. De resto, se o “raio verde”, durante muito tempo, esteve do lado da mais completa irrealidade, hoje, porém, ele inclui-se entre o que, de ciência certa, se sabe que existe.

Uma coincidência fez com que a semana em que se comemoram os 100 anos da morte do “inventor” do “raio verde” fosse marcada pela aparição de um invulgar raio de luz na catedral de Estrasburgo.

O “célebre raio verde”, noticiou a Agência France-Presse, é um “fenómeno inexplicado que, a partir de um vitral, ilumina, nos equinócios da primavera e do outono, um Cristo de pedra do séc. XV”.

Segundo a agência noticiosa, o “raio verde”, que foi descoberto há algumas décadas por um engenheiro-geómetro excêntrico, junta, duas vezes por ano, uma multidão na catedral.

A Igreja diz que se trata de um simples “acaso”. Ainda assim, um “feliz acaso”, notava o padre Bernard Xibaut, um dos membros do Conselho Episcopal.

O “raio verde” de que Júlio Verne falou é outro. Começou por ser considerado um simples expediente literário para, finalmente, ser um fenómeno fotografável ou filmável explicado pelo que os

cientistas designam por “refracção diferencial”. Isto não quer dizer que não seja muito raro. A “invenção” de Júlio Verne tem seguido o seu caminho. Em 1986, inspirou o filme Raio Verde, de Eric Rohmer, e, até hoje, nenhuma explicação científica prejudicou a bela metáfora que o “raio verde” também é.

Antes de descrever esse tipo de raio, Júlio Verne coloca três questões, a que também dá as respostas:

“Já alguma vez observaram o sol no momento em que ele se deita sobre um horizonte de mar? Sim! Sem dúvida.

Já o seguiram até ao momento em que, quando a parte superior do seu disco aflora a linha da água, ele desaparece? É muito provável.

Mas já repararam no fenómeno que se produz no preciso instante em que o astro radioso projecta o seu último raio, se o céu, sem qualquer bruma, é então de uma pureza perfeita?

Não! Talvez”.

Feita a introdução, Júlio Verne prossegue: “Pois bem, quando surgir a primeira ocasião, – ela apresenta-se muito raramente, – para fazer esta observação, ao contrário do que se pode supor, não irão ver um raio vermelho que ferirá a retina dos olhos, mas um raio “verde”, de um verde maravilhoso, de um verde que nenhum pintor pode obter na sua paleta, de um verde cuja nuance a natureza, seja na cor variada dos vegetais, seja na cor dos mares mais límpidos, é incapaz de reproduzir!

Se há um verde no Paraíso, não pode ser outro senão este, que é, sem dúvida, o verdadeiro verde da Esperança!”

Boa Páscoa.




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