Fotografia:
Páscoa não é só Domingo

Páscoa não é só no próximo Domingo. É Páscoa no próximo Domingo para nos capacitarmos de que é Páscoa em cada Domingo e até em cada dia

N/D
25 Mar 2005

Ao contrário do que possamos pensar, a Páscoa é objecto não apenas de evocação, mas também de actualização. A evocação faz-se pela lembrança; a actualização pelo sacramento. Daí que não devamos falar somente de uma Páscoa anual.
Urge falar sobretudo de uma Páscoa diária, de uma Páscoa contínua. Afinal, que é a Igreja senão Páscoa em acto? João Paulo II explanou belamente esta ideia quando propôs, como enunciado do quinto mistério luminoso, «a instituição da Eucaristia como expressão sacramental do mistério pascal».

A Eucaristia é mistério de luz dado que nela «Cristo Se faz alimento com o Seu Corpo e o Seu Sangue sob os sinais do pão e do vinho, testemunhando “até ao extremo” o Seu amor pela humanidade (Jo 13, 1), por cuja salvação Se oferecerá em sacrifício».

A pascalidade da celebração eucarística radica precisamente aqui: é a Páscoa que está na sua génese e que funciona como seu alicerce. Como acentua Raniero Cantalamessa, «o acontecimento que funda, ou institui, a Eucaristia é a morte e a ressurreição do Senhor, o Seu “dar a vida para retomá-la de novo”».

O seu carácter de «acontecimento» deve-se à circunstância de se tratar de «qualquer coisa acontecida historicamente, um facto único no tempo e no espaço, acontecido de uma só vez (“semel”) e irrepetível». Convirá ressalvar, porém, que não estamos perante um acontecimento concebido a partir da sua pura materialidade. Ele «tem uma razão, um “porquê”, que constitui como que a sua alma, e que é o amor».

Com efeito, importa não perder jamais de vista que, na medida em que nasce da Páscoa, «a Eucaristia nasce do amor». Na verdade, «porque nos amava, “Cristo entregou-Se a Deus por nós, como oferta e vítima, como perfume agradável” (Ef 5, 2)».

Apercebemo-nos assim da continuidade que existe entre acontecimento e sacramento. Sabemos que a morte de Cristo «aconteceu uma única vez; e, no entanto, o sacramento renova-o periodicamente, como se repetisse mais vezes aquilo que a História proclama que sucedeu uma vez só».

Ou seja, «aquilo que a História afirma que aconteceu na realidade, o Sacramento renova-o no coração dos fiéis: não no sentido de que o faz acontecer de novo (non faciendo), mas no sentido de que o celebra (sed celebrando)». Paulo VI recorre ao verbo «representar», entendido «no sentido de reapresentar, isto é, de tornar de novo presente».

A esta luz e como nos lembra Raniero Cantalamessa, «houve apenas uma Eucaristia, a que foi realizada por Jesus com a Sua vida e a Sua morte; pelo Sacramento, há tantas Eucaristias quantas se celebraram e se celebrarão até ao fim do mundo». Em síntese, «o acontecimento realizou-se uma só vez; o Sacramento realiza-se de cada vez».

Vale a pena ter presente que, «graças ao sacramento, tornamo-nos, misteriosamente, contemporâneos do acontecimento» já que «o acontecimento torna-se presente a nós e nós ao acontecimento». Porquê? Por causa do Espírito Santo!

Já Leão XIII dizia que «Cristo realizou todas as Suas obras – e especialmente o Seu sacrifício -, com a intervenção do Espírito Santo».

A própria Escritura sustenta que Jesus, «com um Espírito eterno, Se ofereceu a Deus como vítima sem mancha» (Heb 9, 14). «Eterno» quer dizer – volto a Raniero Cantalamessa – que «não está destinado a cessar, mas que dura até ao fim dos tempos».

Tal como sucede com toda a vida de Cristo, também o Seu sacrifício é, ao mesmo tempo, «momentâneo e duradouro: momentâneo conforme a história, duradouro conforme o Espírito». Em cada Missa, «é como se o último suspiro de Jesus (Jo 19, 30) voltasse a pairar sobre nós».

Por conseguinte, Páscoa não é só no próximo Domingo. É Páscoa no próximo Domingo para nos capacitarmos de que é Páscoa em cada Domingo e até em cada dia. Sempre que escutamos a Palavra; sempre que comemos do Pão; em suma, sempre que a Eucaristia acontece, acontece Páscoa na nossa vida.




Notícias relacionadas


Scroll Up