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A carta do Papa

Como habitualmente, a propósito da Quinta-feira Santa, que hoje celebramos, João Paulo II dirigiu uma carta aos sacerdotes, propondo-lhes que reflictam sobre as palavras da instituição da Eucaristia. Palavras que, afirma, devem ser para o padre «não apenas uma fórmula de consagração, mas uma fórmula de vida».

N/D
24 Mar 2005

Começa o Santo Padre por recordar as características da Quinta-feira Santa: o dia do amor de Cristo levado «até ao extremo», o dia da Eucaristia, o dia do Sacerdócio.
Refere-se, depois, à vida do sacerdote, salientando que deve ser uma existência profundamente agradecida, uma existência doada, uma existência salvada para salvar, uma existência evocativa, uma existência consagrada, uma existência voltada para Cristo, uma existência eucarística na escola de Maria.

Vejo na carta do Papa, sobretudo, um convite a que nós, os padres, sejamos precisamente isso: padres. Que não nos mundanizemos mas saibamos viver no meio do Povo de Deus para orientar o seu caminho e nutrir a sua esperança.

Estou persuadido de que uma das grandes tentações a que precisamos de saber resistir é a de nos laicizarmos. A de sermos iguais aos restantes membros da Igreja, como que esquecendo-nos de que, no seio dessa comunidade, temos uma missão específica a desempenhar e somos chamados a um particular estilo de vida.

Pode surgir a tentação de invadirmos o que é a esfera de actividade dos leigos, assumindo responsabilidades em áreas como a do desporto, do associativismo, da política, do mundo do ensino e da assistência social, não nos restando depois tempo para o que é específico da nossa missão.

Corremos o risco de, se não andarmos atentos, nos perdermos num conjunto de actividades que podem e devem ser feitas pelos leigos – às vezes, nessas matérias, até com mais competência do que nós – e depois não termos disponibilidade para o que deve ser feito unicamente pelo padre.

Podemos ser assediados pela tentação de levarmos um estilo de vida semelhante ao dos outros, faltando-nos, depois, autoridade moral para falarmos de doação, de simplicidade, de austeridade de vida, de desprendimento, de fidelidade ao cumprimento dos próprios deveres, de gastos supérfluos, de consumismo.

A nossa vida tem sentido, escreve o Papa, se soubermos fazer-nos dom, colocando-nos à disposição da comunidade, para a servirmos como padres. Se vivermos como salvados, para que nos tornemos arautos credíveis da salvação.

Se, num tempo de rápidas mudanças culturais e sociais que afrouxam o sentimento da tradição e deixam, sobretudo as novas gerações, expostas ao risco de perderem a ligação com as próprias raízes, formos, na comunidade que nos está confiada, o homem com a memória fiel de Cristo e de todo o seu mistério.

Se, resistindo à tentação de andarmos, numa ânsia desenfreada e nada evangélica de vedetismo, à procura da última novidade, nos preocuparmos em apresentar, numa linguagem de hoje e com uma roupagem de hoje, a verdade do Evangelho.

«As pessoas, lembra-nos João Paulo II, têm direito de se dirigir aos sacerdotes com a esperança de «ver» Cristo neles. Sentem necessidade disso particularmente os jovens, que Cristo continua a chamar a Si para fazer deles seus amigos e propor a alguns a doação total à causa do Reino. Não hão-de certamente faltar as vocações, se subirmos de tom a nossa vida sacerdotal, se formos mais santos, mais alegres, se nos mostrarmos mais apaixonados no exercício do nosso ministério».

Quinta-feira Santa, dia do Sacerdócio, é ocasião propícia para que todos nos interroguemos sobre que padres somos. Sobre se estará bem que não haja tempo para preparar devidamente as celebrações, para atender com calma as pessoas, para se sentar no confessionário porque foi gasto num conjunto de actividades, de indiscutível interesse, mas que deveriam ser confiadas aos leigos.

O dia de hoje pode também dar ensejo a que reflictamos sobre se a pastoral da emotividade não andará a relegar para um segundo plano a evangelização de profundidade.




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