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Morrer para salvar um eucaliptal

Figura patética a desses jovens bombeiros. Figura mais patética ainda, se possível, a dos caçadores em Portugal, com pouco ou nada para caçar, uma vez que o sobre-povoamento do Litoral e os incêndios no Interior têm erradicado a caça, objecto do seu desporto. E são cada vez mais, julgo que mais de 200 000…

N/D
23 Mar 2005

1- Em lugar de colónias, eucaliptos – Outrora em Portugal, os homens que morriam na flor da idade, morriam em nome do engrandecimento da Pátria e do Império, lá nessa Índia do fim do Mundo; ou naquele Brasil paradisíaco; ou nesta África, esse imenso quintal que foi nosso por 500 anos. Hoje o português, quando morre novo, morre de “overdose” ou de Sida, ou numa rixa de fim de semana, ou num acidente de automóvel, ou de doença cardiovascular, ou numa discussão acerca dos correctos limites do seu minifúndio.
Porém, morte mais estúpida que a daqueles 4 bombeiros no incêndio de Mortágua é difícil de imaginar. No dia 28 de Fevereiro último, os bombeiros Adelino Oliveira, Acácio Silva, José Ferreira Lopes e Luís Miguel Teixeira, todos oriundos dos montes a sul de Coimbra, morreram queimados-vivos quando cooperavam na extinção de um incêndio que lavrava entre Mortágua e S.ta Comba Dão, mais concretamente junto a Vale de Paredes.

Floresta daninha e infestante, a do eucalipto, insulto com que o Capitalismo selvagem e a “globalização” resolveram brindar o nosso Povo e o nosso Território. E há assim vastas regiões desse antigamente chamado (sem exagero) “jardim à beira-mar plantado” que hoje não passam de áreas exaustas e desertificadas, sacrificadas à mono-cultura da árvore que a ganância elegeu como a mais lucrativa para o fabrico da pasta de papel. Quem duvidar, pois que por exemplo experimente viajar pela nova auto-estrada entre Famalicão e Vila do Conde. Ou que vá a Mortágua, ao Marco, a Águeda, a Tábua, a Arouca, que sei eu?…

Nem sequer o pinheiro, essa bela árvore ibérica e europeia, dá o rendimento adequado a satisfazer a avidez dos caldeus da Celulose. Tudo tem de ser eucaliptizado, tudo mandam eles incendiar. Até que a ancestral paisagem lusitana seja de vez erradicada da memória dos portugueses (sobretudo da dos jovens ou dos mais incultos).

Até que todos os animais selvagens desapareçam. Até que o Campo e a Serra luso-galaicas sejam devidamente “requalificadas” e “mundializadas” sobrando das antigas 400 espécies de aves avistáveis, umas poucas pombas, galinhas de aviário, gaivotas e pardais (“uma gaivota voava, voava…”). Até que das largas dezenas de espécies de mamíferos, só sobrem os ratos de esgoto, e os cães de raça perigosa.

2 – Mais uma volta na cova – Figura patética, a de 4 bombeiros que tendo fracassado na luta de décadas contra o ciclo criminoso dos “incêndios seguidos de eucaliptização”, morrem eles próprios como torresmos na defesa daquilo que para os portugueses cultos não passa de lixo botânico e paisagístico, um desastre ecológico e natural tão grave como outros que são mais propagandeados (co-incinerações, aterros, descargas de pocilgas, etc.).

Figura patética a desses jovens bombeiros. Figura mais patética ainda, se possível, a dos caçadores em Portugal, com pouco ou nada para caçar, uma vez que o sobre-povoamento do Litoral e os incêndios no Interior têm erradicado a caça, objecto do seu desporto. E são cada vez mais, julgo que mais de 200 000… E parecem não estar dispostos a fazer 1 ou 2 anos de quarentena (nem depois do mar de fogo do Verão de 2003) para que as espécies recuperem um pouco que seja, dos seus anteriores efectivos.

Diz o Povo que “o velho” de vez em quando dá uma volta na cova, lá no lugar de Vimieiro. Desta vez calculo eu que tenha dado mesmo, pois a tragédia dos 4 bombeiros deu-se a uns escassos 10 kms da sua humilde sepultura.

3 – Monforte, uma família de mangustos a atravessar a estrada – Este bocadinho que se segue, tenho de o dedicar respeitosamente ao Senhor D. Eurico, que é natural do lado de lá daquelas serranias.

Pois é assim. Três dos agora martirizados “soldados da paz” eram naturais do Almalaguês, freguesia serrana coimbrã cujo nome, algo misterioso e castiço, rivaliza com o seu privilegiado enquadramento paisagístico nos irregulares contrafortes da serra da Lousã; e tão perto também, daquelas colinas que parecem vulcões extintos, mas que não me apetece dizer agora onde ficam. É uma das minhas zonas favoritas no Centro do País, a qual aliás visito com alguma frequência.

Pois uma vez, há uns 4 ou 5 anos atrás, vi lá uma cena extraordinária, das mais marcantes nos longos anos que conto como “amateur naturalist”. Tinha parado o carro numa estradinha estreita que atravessava um pinhal, no desvio que desce para a aldeia de Monforte, na ligação entre o Almalaguês e Penela. Pois não é que segundos depois, cerca de 20 mts à frente, uma família de mangustos (ou saco-rabos, os “herpestes ichneumon”), atravessa tranquilamente a estrada, vinda do lado de uma pequena vinha e embrenhando-se no escuro pinhal?

A mãe estendia a cauda ao 1.º filho, este ao 2.º, o 2.º ao 3.°, e por aí fora. Garanto que, para quem uma hora antes andava como eu, a fazer compras na baixa de Coimbra, foi um “contacto imediato do 3.º grau” com a Natureza e com a grandeza e a eternidade da Obra de Deus, que todos temos obrigação de passar intacta aos nossos filhos e netos. Sendo o contrário grave pecado, que Deus pela certa castigará.




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