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Anemia social

Entramos na era da síntese eclética da realidade: aceitamos tudo e em simultâneo tudo rejeitamos. Se é benéfico ou maléfico já não importa, pois o interesse está em poder tirar algum proveito disso e de preferência sem grandes justificações

N/D
23 Mar 2005

O frenesim da existência. A correria em que se processa o “cursus” da vida de cada indivíduo. Os dias ultimados por uma multiplicidade de objectivos. O tempo que nada chega para concretizar os intentos desejados. O burburinho ensurdecedor das cidades megalómanas.
O olhar disperso de indivíduos nas aventuras extasiantes de um momento transnauseante. A constante necessidade de mudança de paradigmas e de incrementação de novas invenções ilusórias de consciências amarguradas e embaladas na anemia indiferentista do invólucro social.

A necessidade da concupiscência imediata que procura despojar as marcas indesejáveis de um dia prisioneiro da cronometrização temporal. A vertigem, o movimento, o impacto, a emoção sentimentalizada em flashes que prometem fama, êxito e sucessos eternos. Eis o que melhor caracteriza a busca de sentido e o excesso de confiança na engenharia humana.

É, num momento de maior desafogo intelectual, que se atestam os cabarés e as diversões noctívagas onde um misto de frustrações e descompassamentos origina autênticos comportamentos estereotipados e estandardizados (todos se entendem, porque ali falam o mesmo tipo de linguagem e se encontram num estado de espírito semelhante!).

Os grandes impérios do consumo, da oferta falaciosa enchem nos sete dias da semana, tornando-se verdadeiras “catedrais de culto” da moda, das tecnologias, de realidades virtuais, de sonhos e das novidades permanentes. São necessárias coisas novas a todo custo, é o bem parecer social!

Por isso, andamos constantemente a boiar à tona da água, à espera de novas e misteriosas novidades, de modo a satisfazer a incomensurável vontade de tudo querer e desejar a todo custo. No entanto, quando flutuamos nestas condições efémeras, alienantes e massificadas mais cedo ou mais tarde submergimos o nosso ser e com ele tudo aquilo que nos faz distinguir enquanto pessoas com identidade única e insubstituível.

Ao não se conceber como tal, o ser humano tem feito aquilo que se julgava impossível: afastou-se em relação a si mesmo e ao resto da humanidade e, em vez de procurar atitudes de diálogo, enveredou pelas situações de atrito que hoje e ontem envolvem as diversas culturas.

Perante isto, restam as multidões anónimas numa proliferação de sociedades também elas sem designação específica. Todos impõem normas mas ninguém assume as regras consequentes de uma chefia incerta e melindrosa.

Esta desconexão e debilidade da cultura moderna colocaram-nos num conflito interior desnivelado de tipo pendular. Entramos na era da síntese eclética da realidade: aceitamos tudo e em simultâneo tudo rejeitamos. Se é benéfico ou maléfico já não importa, pois o interesse está em poder tirar algum proveito disso e de preferência sem grandes justificações.

Todavia, temos que admitir que isto faz parte do nosso contexto sócio-económico actual. Tal facto, não pode ser negado, pois seria negar a própria realidade enquanto evidência por si mesma. No entanto, tal constatação não impede de termos uma visão diferente da vida, dos valores, dos costumes e tradições que a nossa existência recebeu, criou e possui e assumi-los numa postura diferenciada.

Sem dúvida que aqui entra o plano da moral de uma religião, capaz de na tolerância assumir com convicção e descomplexadamente um modelo de vivência em sociedade, tendo como referência o sentido pleno do transcendente. Mas, terá que ela própria aceitar a pluralidade de sentimentos e sensibilidades de todos aqueles a quem procura chegar. Terá que apresentar uma conduta de vida autêntica àqueles que vivem nos recônditos da incerteza dos problemas da vida, sem ser excessivamente sentimentalista, mas sobretudo compreensiva e eficaz.

Assim sendo, a compreensão dos ciclos vitais da natureza humana passa pelo grau de afectividade na comunicação com aqueles que apenas conheceram um estado de existir que, por sinal, é o mais degradante – que é a boémia de um sentir-se pária da sociedade. Tendemos habitualmente a fazer das pessoas objectos manipuláveis, depois ou relegamos a resolução do problema para a sociedade ou a culpabilizamos por aquilo que cada um contribuiu para que tal situação vigorasse.

E, por isso, a nossa acção é sempre desculpável, pois tem sempre uma justificação escondida por detrás da inocência casta das fragilidades humanas. E, assim, dizemos agir em nome da solidariedade universal, vicejando alcançar sempre um maior bem do aquele que perpetramos.




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