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Os pobres não dão votos!

A situação dos pobres nos países ricos é pior do que no passado. Os votos dos pobres não interessam, até porque muitas vezes nem votam» – disse, recentemente, Francisco Sarfield Cabral numa conferência na igreja paroquial de Sesimbra.

N/D
21 Mar 2005

Este responsável da informação na Rádio Renascença falava no decorrer das «conferências quaresmais», que a Paróquia de Santiago promove semanalmente durante a quaresma, abordando este ano o tema: “a virtude vence o pecado”. Esta foi a quinquagésima quinta conferência ministrada ao longo destes oito anos consecutivos.
Centrando a sua reflexão sobre o binómio inveja/caridade Sarfield Cabral analisou as desigualdades com que muitas vezes temos de conviver no nosso tempo, aflorando ainda algumas das razões para esse “desinteresse em relação aos pobres”. Referindo-se ao contexto português recordou que há um quinto de portugueses (dois milhões de pessoas) que vive na pobreza.

Diante desta análise, que tem tanto de realista quanto de interpelativa, poderemos perguntar:

* Os noventa euros prometidos, em campanha eleitoral pelo partido vencedor das últimas eleições, como vão chegar às reformas dos mais velhos e mais pobres?

* A insistência na “classe média” – que tanto furor até suscitou, recentemente, em certas forças partidárias – é denunciadora dessa insensibilidade aos pobres, rejeitados e excluídos da nossa sociedade?

* Após o colapso do comunismo e algum endeusamento do neo-capitalismo, até onde irá a ruptura com modelos anquilosados de economia, de segurança social e de trabalho?

* A falência do Estado-providência e a impulsão da previdência têm ajudado a reflectir sobre novos modelos éticos e projectos culturais com base na pessoa e não no lucro?

* Até onde irá a capacidade substitutiva da Igreja Católica ao cuidar dos pobres, que o Estado vai relegando para as franjas do aceitável?

* A “caridade empresa” de algumas instituições da Igreja Católica não poderá ser alienação do anúncio profético da novidade de Cristo e o compromisso político dos cristãos?

* Quais os resultados evangelizadores de tantos centros paroquiais e obras sociais com teor católico? Que benefício pastoral se tem colhido em fazer coincidir o padre-pároco com o padre-patrão nessas instituições socio-caritativas como organização empresarial?

Retomando algumas das ideias de Francisco Sarfield Cabral sentimos a exigência em que a caridade – enquanto virtude, compromisso e comportamento – não se deve resignar ao que está a acontecer, mas deve ser gerada na vivência comunitária da fé, celebrando a força de mobilizar-se em função dos outros e conjugando, em última análise, o desafio de que «é dando que se recebe»… sem olhar a quem venha a beneficiar. Tudo isto mesmo em conjugação com as propostas da “renúncia quaresmal” das nossas dioceses.

Atenção aos pobres a quanto obrigas… ou devias obrigar!




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