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Ao Papa do Sofrimento

Esta evangelização, pela aceitação da provação, é uma terrível herança que João Paulo II nos está a legar

N/D
21 Mar 2005

A figura do actual Papa, João Paulo II, é um manancial para as análises mais díspares. Crentes ou ateus não podem ficar indiferentes perante este homem que na sua fé parece pedir sofrimento em vez de saúde, martírio em vez de gozo, trabalho em vez de descanso. Aquela figura que se impõe de branco à janela do Vaticano, janela também do Mundo, transforma o espanto em veneração e a acrimónia de detractores em clima de tolerância, quiçá de amor.
O Papa não pode renunciar a não ser em casos extremos – dizem os teólogos -. O Mundo já não suportaria vê-lo “descer da cruz” com a ligeireza de quem, como nós, simples mortal, pretende aliviar o seu sofrimento. O Mundo exige-lhe mais sofrimento, mais dores, mais sacrifícios humanos porque o quer nessa medida. É o mártir que querem ver martirizado. E, se por um lado, o lamenta, no íntimo amarra-o a este egoísmo de dor que deixou apenas de ser do Papa, para se transformar em dor do Mundo. É estranho este sentimento de amor que crucifica.

Este mundo é o seu algoz, o mesmo que ele pretende ensinar a sofrer, o mesmo que um dia lhe chamará o Papa do Sofrimento e terá talvez senão esquecido, pelo menos relegado para segundo plano, o epíteto de Papa Peregrino. O Papa pode não estar presente na Via Sacra do Coliseu, como era seu hábito e costume, mas não deixará de estar muito mais presente do que se lá estivesse em corpo.

Esta evangelização, pela aceitação da provação, é uma terrível herança que João Paulo II nos está a legar. Para já ela impõe-se-nos, não como o vento forte que passa e derruba, mas como uma viração, em fim de tarde amena, que vivifica e ameniza.

Tenho vergonha do meu pequeno sofrimento do reumatismo e coro de pejo ao queixar-me das minhas dores nas costas. Olho para o Papa e ele diz-me, sem palavras, de cima de toda a sua autoridade dorida, que a minha cruz é bem leve e que outras há bem mais pesadas.

Outras como a dele, certamente. Já não o queremos sem sofrimento, não o suportaríamos se nele, Deus ou o seu Filho fizesse o milagre da cura. O Mundo adora-o como um “cristo vivo” naquela imagem que temos de Jesus morrendo na cruz e só dela descendo, para o colo de Maria – Miguel Angelo e a Pietà – . Também João Paulo II tem um colo garantido, quando morto descer da sua “cruz”, não o da sua mãe que perdeu em tenra idade, mas o colo alargado e abrangente da humanidade; estou certo de que não se furtarão a aconchegá-lo aqueles que não sentem porque não lhes foi concedida a graça ou o dom divino de acreditar.

Sem possibilidade de fechar os olhos à realidade também estes são forçados a acreditar no estóico sacrifício humano do Homem de Branco. E se renunciasse? Bem compreenderíamos e até acharíamos justo que o fizesse, mas transformar-se-ia numa coisa muito humana. E quer queiramos quer não este sofrimento do Papa já o colocou noutros patamares. Está para lá.

A Igreja, enquanto instituição, tem mecanismos para seu governo, mas não é disso que se trata. Não é a burocracia da instituição quem define a missão. É outra coisa.

Mais essência que substância. O Papa do Sofrimento é mais que a instituição, é uma lição viva. E é disso que se trata e o Papa sabe-o. Que o seu Jesus Cristo continue a servir-lhe de modelo.




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