Fotografia:
Ruy de Carvalho na Póvoa de Lanhoso

Quando, em determinadas ocasiões, é necessário fazer uma referência a pessoas que frequentam mais ou menos assiduamente a televisão, é habitual dizer-se que elas dispensam apresentações. De certo modo, isso é verdade.

N/D
20 Mar 2005

É que aqueles que, com mais regularidade, vemos com gosto nos ecrãs saltam, muito rapidamente, para o círculo mais íntimo das nossas relações pessoais. Por vezes, no entanto, tropeça-se numa razão qualquer e percebe-se que pouco ou nada sabemos sobre aquela personagem televisiva que, iludidos, cumprimentaríamos efusivamente se com ela nos cruzássemos numa rua.

O actor Ruy de Carvalho é, com certeza, uma das pessoas sobre quem, certamente, se dirá que dispensa apresentações, mas não abundarão os que conhecem de um modo suficientemente pormenorizado o percurso artístico deste actor que anda pelos palcos dos teatros portugueses desde 1942, ano em que, como amador, se estreou em O Jogo para o Natal de Cristo, uma peça que Ribeirinho encenou, ou desde 1947, se se preferir indicar a data da estreia profissional, que teve lugar na comédia Rapazes de Hoje, de Roger Ferdinand.

Como tanta gente, também eu ignorava quase tudo o que de verdadeiramente relevante Ruy de Carvalho fez durante mais de meio século. Um convite de Rita Araújo, que tem feito um magnífico trabalho enquanto vereadora da cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, para “conduzir”, no penúltimo sábado à noite, uma tertúlia com o actor no Theatro Club proporcionou-me a singular oportunidade de conhecer uma tão sedutora personalidade da cultura portuguesa.

O trabalho de casa tinha servido para identificar alguns dos factos que marcaram o trajecto de Ruy de Carvalho. Estreou-se, como acima se disse, no teatro, como amador e como profissional, nos anos 40; fundou o Teatro Moderno de Lisboa em 1961; em 1963, dirigiu artisticamente do Teatro Experimental do Porto; aqui, tem, com Terra Firme, de Miguel Torga, a sua única experiência de encenador; em 1977, ajudou a relançar o Teatro Nacional D. Maria II; em 1988, no âmbito das comemorações dos 150 anos do Teatro Nacional e dos 50 anos da sua carreira de actor, protagonizou Rei Lear, de William Shakespeare; estreou-se, em 1951, como actor de cinema em Eram 200 Irmãos e, em 1982, com actor de telenovela em Vila Faia.

A lista era extensa. Incluía ainda os autores das peças que o convidado da Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso representou – Bertolt Brecht, William Shakespeare, Anton Tchékhov, Tennessee Williams, José Cardoso Pires ou Bernardo Santareno, entre outros -, mas deixava de fora, pois não haveria tempo para falar de tudo, a referência aos incontáveis prémios – da crítica, da imprensa, de popularidade, etc., etc. – e às várias comendas. O que valeria mesmo a pena aproveitar era a oportunidade para fazer uma espécie de visita guiada aos mais emblemáticos palcos que Ruy de Carvalho tem vindo a percorrer desde há cerca de sessenta anos.

Durante o jantar, afinaram-se alguns pormenores relativos à tertúlia. A mim, foi-me incumbida a tarefa de pôr Ruy de Carvalho a falar, se assim se pode dizer. Iniciada a sessão, poucos minutos foram o bastante para compreender que o papel que me estava reservado era semelhante ao da enfermeira que, à noite, vai acordar o doente para lhe dar um comprimido para dormir. Ruy de Carvalho, realmente, não precisava de ninguém para se sentir estimulado a discorrer de forma tão fascinante sobre a cultura, a política, Portugal ou sobre o seu amor ao teatro.

Muito se poderia dizer para explicar por que é que Ruy de Carvalho é bem mais do que o actor que a maioria das pessoas conhece das telenovelas. Se o currículo impressiona, não impressiona menos a imensa qualidade humana do actor. E, desde logo, por ser uma virtude tão insuficientemente cultivada, como se pode comprovar através do mau exemplo de tantos palermas auto-suficientes, a amabilidade enorme de Ruy de Carvalho é absolutamente tocante.




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