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Pela Imprensa Estrangeira

Os jornais têm vindo a focar alguns assuntos com interesse para análise detalhada, a título de exemplo mencionamos a tortura, que iremos desenvolver na próxima sexta-feira a propósito da “Constituição para a Europa”, à semelhança do que fizemos na sexta-feira passada relativamente à pena de morte.

N/D
20 Mar 2005

O aborto, a eutanásia, têm vindo a ser notícia frequente, tal como mais adiante, e quando a própria imprensa estrangeira nos convencer da oportunidade, aqui daremos o respectivo realce.
As comemorações do aniversário do 11 de Março e as reflexões sobre o terrorismo foram objecto de detalhadas referências. Como todos imaginamos, vão continuar a sê-lo. Aliás, o inconsciente colectivo de cada povo, de todos os povos, vai ficando demasiado carregado. Não só, mas também por isso, o inconsciente individual vai sendo atingido por todos estes acontecimentos.

Esquecendo estas violências, vamos deter-nos um pouco no que a imprensa foi dizendo a propósito do dia internacional da mulher. No fundo todos os dias deviam ser da mulher como do homem, da criança, etc., etc. Todos os dias deveriam ser Natal (!).

Para compreender melhor o que hoje se passa, reli umas páginas de um livro intitulado “Apologia das Mulheres”, “obra de Senhor Thoma’s da Academia de França, traduzida em portuguez por Huma Nacional”, em 1805.

No seu discurso apologético das mulheres, escrevia o Senhor Thoma’s: “E se correrem os séculos, e os Paízes, ver-se-haõ as Mulheres, quasi por toda a parte, adoradas, e opprimidas. O Homem, que nunca deixou perder huma ocasiaõ de abusar da sua força (rendendo homenagens á sua belleza) por toda a parte se tem aproveitado das suas fraquezas: elle tem sido ao mesmo tempo o seu Tyranno, e o seu Escravo.

A mesma natureza, na formaçaõ d’Entes taõ sensiveis, e taõ agradaveis, parece que se occupou muito mais dos seus encantos, que da sua felicidade. Cercadas continuamente de dores, e de receios, participaõ de todos os nossos males, e se vêm ainda sujeitas a outros, que somente lhes pertencem. Ellas naõ podem dar a vida sem se espôr a perdê-la.”.

Mas o que nos disseram os recentes jornais? Relativamente à imprensa francesa, podia ler-se no “Le Monde” de 8 de Março algumas palavras de uma deputada da Assembleia Nacional: “No Hemiciclo, nós somos minoritárias e tratadas como tais.”

Também no seu discurso, esta mesma deputada, Nathalie Kosciusko – Morizee, e continuando a aludir à situação do Hemiciclo, dizia: “Não há um ostracismo organizado, mas é um mundo de homens. Isto manifesta-se através de toda a espécie de coisas: nas horas vagas, nas chalaças. Eu conheço bem os mundos masculinos, eu fiz o Politécnico, onde havia 10% de mulheres, como na Assembleia. Depois eu fiz o serviço militar como oficial da marinha. No navio havia 250 marinheiros e 2 mulheres.

Eu reconheço, na Assembleia, ambiências iguais às que pude encontrar na marinha”.
Nesse mesmo jornal três militantes da Liga dos Direitos das Mulheres subscreviam um artigo intitulado “O feminismo, uma dinâmica democrática”, onde escreviam: “Nós estamos inquietas porque as nossas sociedades estão divididas entre dois extremos, o hiperliberalismo dos costumes, que compra, vende, aluga o corpo e os serviços sexuais das mulheres e os integrismos religiosos que nos oprimem. Isto passa-se debaixo dos nossos olhos com a cumplicidade de certas políticos, tanto da direita, como da esquerda”.

Ainda neste diário, e ajudando um pouco a compreender a problemática do início das negociações para a integração da Turquia na Europa, escrevia Georges Marin: “Um novo «crime de honra» escandaliza a Alemanha. O assassinato, nos arredores de Berlim, de uma jovem mulher de origem turca que rompera com as tradições familiares, depois de um casamento forçado, provoca uma vaga de emoção e relança o debate da integração das minorias muçulmanas”.

O “La Vanguardia” de 14 de Março, a respeito desta situação, escrevia: “A turca que vivia como alemã”. Mais abaixo dizia: “A morte desta jovem de origem turca, mãe de um filho, voltou a pôr em evidência, nas grandes cidades alemãs, a existência de um sub-mundo em que se cometem crimes de honra e em que os matrimónios forçados são habituais”.

No “La Croix” de 8 de Março, numa página integralmente dedicada às mulheres, podia ler-se: “As mulheres são mais fiéis às causas que defendem que os homens (…); ascender aos pontos de responsabilidade é mais difícil para elas do que para os homens”.

Não obstante o que acaba de transcrever-se, o mesmo jornal dedica duas páginas à situação da mulher perante a religião. Aí pode ler-se “o avanço das mulheres na Igreja de França. Uma sondagem do “La Croix”, na totalidade das dioceses de França, mostra que as mulheres estão cada vez mais presentes nas instâncias de decisão (…). Nestes últimos dez anos, mais de um terço das dioceses da Igreja de França admitiram mulheres nas instâncias de decisão”.

No “Le Fígaro” do dia 8 de Março em “As mulheres e a Constituição Europeia”, escrevia Béatrice Majnani d’Intignano, aludindo à força de voto feminino: “52% do eleitorado! Como é que as europeias percebem a sua nova cidadania? Como votarão elas? Se o escrutínio é cerrado, como aquando do tratado de Maastricht em 1992, a atitude das mulheres se revelará determinante em termos de abstenção e em termos de adesão”.

O que pôde ler-se em alguns jornais espanhóis? “A União Europeia condenou a repressão turca contra uma marcha de mulheres. A aspiração turca de entrar na União Europeia sofreu Domingo um tropeço que vai custar sérios desgostos a Ancara. A União condenou ontem, sem paliativos, a violência que no Domingo exerceu a polícia turca contra uma centena de mulheres que se manifestavam em Istambul para reclamar os seus direitos aquando da celebração do Dia Internacional da Mulher. Os agentes anti-distúrbios golpearam as mulheres e adolescentes e realizaram dezenas de detenções.”

No “El País”, por seu lado, podia ler-se: “Só as mulheres cozinham e fazem lavagens em mais de 75% dos lares”. Neste mesmo jornal, e a propósito das mulheres do Kuwait, escrevia Angeles Espinosa: “As mulheres alcançaram a igualdade educativa, mas estão fora da política (…). O governo do Kuwait pediu ao Parlamento uma sessão especial para se proceder à tramitação da lei que reconhece o direito de voto das mulheres (…). Não é justo que metade da so-ciedade não participe na política”.

Ainda neste diário, escrevia Ângela Boto, com referência à biomedicina: “Conta a lenda que a primeira esposa de Adão foi Lilith, uma mulher forte e decidida, criada da mesma matéria que o seu companheiro, de barro e não de uma costela deste. Dizem que a primeira fêmea recusou submeter-se ao varão e, por isso, foi condenada ao esquecimento (…). Em vinte anos a percentagem de investigadoras (de biomedicina) passou de 41% a 28%”.

O “La Vanguardia”, numa página dedicada à violência contra a mulher no mundo, e fazendo-nos viajar até ao Paquistão, dizia: “Mujtara já tem quem a defenda. O governo do Paquistão apoiará o recurso contra a sentença que absolveu na passada semana cinco dos seis homens condenados à morte pela violação de uma mulher num crime de “honra”, informou ontem o ministro da Informação do Paquistão. Mujtara Mai, de 30 anos de idade, que foi violada por um grupo de homens da sua aldeia por uma vingança entre clãs em Fevereiro de 2002″.

No dia 9 de Março o “Le Monde”, a propósito de uma aldeia do Senegal, referia: “A coragem de uma mulher, no meio da aldeia, fez com que quatro meninas peçam à mulher de um notável que lhes permita escapar às mutilações sexuais impostas em nome do Islão. A esta «tradição» ela contrapõe a do «moolaadé», o direito de asilo tradicional, e ataca de frente o patriarcado”.

No “El País” de 10 de Março, e ainda viajando por África, mais propriamente pelo Ruanda, podia ler-se: “À medida que o Ruanda se recompõe, as vozes femininas sobem mais alto. Desde o genocídio, as ruandesas desempenham um papel público mais activo. Odette Nyiramirimo é senadora e diz «aprendemos com rapidez porque temos que fazê-lo»”.

No “Le Monde” de 9 de Março, a propósito da Itália podia ler-se: “Em Itália, vítimas de fortes discriminações, as mulheres trabalham pouco e não têm mais filhos”; relativamente à França dizia-se que “a taxa de fertilidade é uma das mais elevadas da União Europeia. O modo de conciliar a actividade profissional e a família ocupa o cerne dos debates políticos”.

Depois de lembrar “a jornada das mulheres sob matracas na Turquia, faz-nos subir à Suécia para dar conta de que “na Suécia, o combate pela igualdade dos sexos é uma constante política. O Parlamento conta com 47% de mulheres. As suecas têm uma taxa de emprego das mais elevadas da Europa, apesar das feministas pensarem que ainda resta muito a fazer, designadamente em matéria da violência”.

Para terminar as nossas viagens, vamos à Argélia, onde recentemente foi publicado o novo código da família. O “La Croix” de 14 de Março dizia: “A mulher só tem o direito de pedir o divórcio em situações particulares de doença e em caso de separação por um período não inferior a um ano”.

Enfim, o pouco que se disse permite supor o muito que fica para dizer e sobretudo que há para fazer. Decorreram 200 anos da data da publicação, melhor tradução, da “Apologia das mulheres” do Senhor Thoma’s; pode ser que algum apaixonado da história, daqui a mais duzentos anos, quando já todos tivermos “desertado” do mundo se lembre de nós com tristeza por não estarmos, então, a seu lado para nos dar os parabéns pela nossa obra. A ver irão os que cá estiverem.




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