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Chover no molhado (58)

Quem pensa, segundo o espírito do bem, pensa bem. E melhor actua, quem se movimenta segundo este espírito. Este espírito, que supera a síntese de todas as formas de pensamento, está presente na unidade constituída de afecto, de razão, intuição moral, religião e revelação.

N/D
20 Mar 2005

Não é necessário que todas estas formas estejam presentes no acto imediato de pensar, mas exige-se, isso sim, que nenhuma destas seja obstáculo à entrada e presença positivas de qualquer das outras formas. Creio, ao afirmar isto, estar com os pés bem assentes no itinerário que vai desembocar na autonomia do pensamento.
Com esta autonomia pretende-se esclarecer que a pessoa se emancipa, governa e relaciona, segundo o seu próprio espírito do bem, sem contudo rejeitar a presença e o contributo do espírito, vindo do outro e do além pela revelação.

Autonomia e heteronomia abraçam-se e cooperam entre si. Por isso apetece-me afirmar que esta unidade, síntese de autonomia e heteronomia, pode aceitar-se como uma das características da pós-modernidade, vigente no século 21. Daqui sairá o homem forte, liberto agora das pragas da indiferença, comodismo, desenfreado desejo de prazer, que amolece o trabalho e apunhala o êxito. E o armazém das potencialidades abrir-se-á rumo ao seu progresso. Urge, contudo, sem nada retirar à força da razão, despromovê-la do singular realce de que gozou e ainda goza.

Estou com a atenção focada nas unilateralidades. Acompanham e sempre acompanharam a história da humanidade. Até a própria democracia nasceu a baloiçar no leito das unilateralidades e vêm sempre para este leito quando está constipada e com arrepios, soltando espirros e batucando em tossiqueiras. São os ventos que sopram do social!

Vem comigo até cerca de três séculos atrás. E se és historiador ou pessoa culta, sabes, tão bem ou melhor que eu, que, com o raiar da autonomia, alvoreceu a modernidade. Acordou e abriu os olhos a democracia. Espreguiçou-se a laicidade, a secularização. Badalam, então, os desagradáveis conflitos. Sangram as veias em regos de crises sociais. Reclamam-se novos direitos. Fogem, por entre os dentes, os anátemas. O magistério, o poder e o prestígio clerical estão em agonia. Pedem os derradeiros sacramentos!

Não menciono a Igreja. Acho descabido. Tem, para o crente, um sabor a espiritualidade-materializada, a transcendência, a divino. É sagrada. Deixai-a caminhar, para o nosso bem.

Não estou a favor da agonia do magistério, do poder e do prestígio, seja de quem for. Estou, isso sim, contra aquele vírus que se agarra e se alimenta do magistério, do poder e do prestígio, definhando-os e matando-os.

Esse vírus chama-se unilateralidade. Serve-se, por vezes, sub-repticiamente, da chancela divina ou humana, para mutilar a liberdade e a criatividade de quem quer que seja. Este é o discordante; é o refractário.

O atrás referido, vou projectá-lo, sem tirar nem pôr, nas forças laicas, políticas e governamentais, pois o vírus que as corrompe é o mesmo. É um vírus que desvaloriza, marginaliza, rejeita e humilha despoticamente.

Não se trata, porém, nem de aplaudir nem de fortalecer a luta entre estas forças hercúleas. Trata-se, isso sim, de enfraquecer e desalojar esse vírus que as consome, as definha e as perverte. Não se trata de estabelecer conciliações entre as forças religiosas e laicas para se conseguir mais liberdades e, talvez, favoritismos. Trata-se de ir à raíz dos movimentos sociais.

A união, a conciliação, o eficiente relacionamento e cooperação destas forças em ordem à maturidade vigorosa e sadia da sociedade, é exigida pelo homem, simultaneamente indivíduo e pessoa.

A pessoa, por mandato inviolável do seu ser profundo e concreto, está incumbida de estabelecer relações progressivamente ajustadas à realidade concreta, a fim de satisfazer, imperativamente, as suas mais autênticas e reais necessidades, tais como as de conservação, socialização, crescimento e transcendentalização.

Advoga-se, então, com base no relacionamento progressivamente ajustado ao transcendente e ao social, que a democracia, a autonomia, o poder, o magistério e o prestígio caminham para a teocracia e que a teocracia se derrame sobre a democracia, sobre a autonomia, o poder, o magistério, o prestígio.

E tudo isto, de que forma? Quais os seus condicionantes? Cabem, investigando, às forças académicas e intelectuais.

O homem é para Deus. E Deus dá-se ao homem.




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