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Ao largo, Loison!

Retomando então um pensamento e um linguajar popular, agora quase obliterados, sugeria que procuremos manter-nos fora do alcance de Loison, que evitemos “ir para o maneta”. Ou seja: exijamos e contribuamos para uma diminuição da sinistralidade rodoviária!

N/D
19 Mar 2005

A conjuntura apresenta-se pouco favorável para o comentário político. Realizadas as eleições, formado o governo – com a prometida discrição -, cumpre-se nos tempos próximos um período de expectativa face ao novo executivo, do qual se espera, entretanto, que a acção política permita a aferição do seu mérito.
As más notícias, sobretudo no respeitante à conjuntura económica do país, mas também relativas à deriva política estabelecida no segundo semestre de 2004, têm propiciado muita reflexão nos media, ao longo dos últimos três anos, pelo que a acalmia, por ora estabelecida, a par de alguma desorientação para a “indústria do comentário”, deve também propiciar alguma distensão nos leitores, mormente naqueles que não se comprazem apenas com os dramas e pequenos sucessos dos programas de entretimento televisivo.

De qualquer modo, a sempre omnipresente questão do rigor orçamental nas contas nacionais continua saliente e do novo ministro das Finanças ficou já expresso o empenho em manter apertada vigilância sobre a questão – em aparente consonância com que o novo primeiro-ministro realçara já, anteriormente, porventura de forma menos contundente. Agora, porém, pretendo não sobrecarregar o leitor com um assunto por demais abordado, do qual a curto prazo poderão ainda advir dissabores adicionais – designadamente o agravamento dos impostos e do desemprego.

Propondo-me, pois, contornar as preocupações do “homo oeconomicus”, deprimido em tempos de míngua e dissipador ou eufórico em tempos de “vacas gordas”, resolvi atentar numa boa notícia relativa ao ano transacto e sobre a mesma tecer algumas considerações. Vem ao caso, o facto de a estatística revelar que em 2004 se verificou uma diminuição expressiva no número de mortos nas estradas portuguesas, por comparação com o ano anterior.

Não obstante a maioria dos condutores portugueses considerar que se cruza com muitos indivíduos na estrada que são incons-cientes e verdadeiros perigos ao volante (os outros é que são sempre os não civilizados, os condutores perigosos…), constata-se, pois, que regrediu durante o ano passado o fatídico número que expressa o corte abrupto com muitos projectos de vida e o luto inesperado e, por isso, mais traumático para os familiares que perdem entes queridos.

Estamos neste caso verdadeiramente perante um “mal menor” que, porém – todos o sabemos -, sempre se mostra incomensuravelmente grande e incompreensível para quem repentinamente se vê privado do convívio de amigos ou familiares. A mesma estatística revela ainda que em Portugal se morre muito mais do que noutros países europeus com um número de carros por habitante assemelhado. Uma redução maior no número de vítimas de acidentes de viação é, pois, desejável e exigível.

O novo código de estrada que entretanto entra em vigor – mais repressivo -, pode também contribuir, lembram os especialistas, para abater a negra contabilidade portuguesa relativa aos acidentes rodoviários. Embora o assunto assuma um cariz algo técnico, nós, comuns automobilistas e peões, podemos descortinar com facilidade que ao nível das autarquias reside uma boa parte da responsabilidade no alcance de números menos assustadores – sendo que muitos dos acidentes ocorrem dentro das localidades e que muitos dos acidentados são peões.

O “arrefecimento” da velocidade dos automóveis, com a diminuição de autênticas vias rápidas em espaço cruzado por peões, o alargamento dos passeios, a multiplicação de passadeiras para peões, devidamente sinalizadas, e ainda a criação de diversas vias para ciclistas, mais ou menos paralelas às vias convencionais, poderiam contribuir para a diminuição do número de vítimas não automobilistas.

Poder-se-á argumentar que o português médio não sobrevive sem o automóvel para as mais pequenas deslocações e que esperar do mesmo um esforço físico acrescido, como o exigido pela utilização mais significativa da bicicleta – em localidades correntemente pouco planas, num clima que ora é muito quente no Verão ora correntemente chuvoso no Inverno – ainda que com poupança correlativa, se mostra irrealizável.

Eu contra-argumentaria, lembrando que, décadas atrás, também Salazar sustentou que os portugueses não estariam preparados para a democracia, sendo que tal juízo se mostrará, agora, até ofensivo para a maioria dos portugueses. Neste domínio, acrescentaria ainda que as modernas bicicletas facilitam muito o avanço em troços algo mais exigentes. No mínimo, garantir-se-ia mais segurança aos que tivessem mais vigor e sentido ecologista, ou ainda mais espírito prático (maior facilidade no estacionamento e ausência de filas) ou de poupança.

O comum filosofar sustenta que a vida é feita de mudança e que temos que nos adaptar às alterações emergentes. Aposto, pela minha parte, que se tornarmos a infra-estrutura rodoviária mais amigável para o peão e para o ciclista também estes se renderão progressivamente aos benefícios da mudança. Neste domínio em Braga – afora o centro urbano – convenhamos que se fez pouco, depois de dezenas de quilómetros de vias construídas nos últimos anos.

Ah, e Loison? – interrogar-se-á o leitor a propósito do título deste texto. Esperando que não seja tomada como demasiado ligeira ou leviana esta referência histórica perante assunto tão sério, lembrava que Loison é o nome de um general francês, a quem faltava um braço, que por alturas das invasões francesas (três, entre 1807 e 1811) aterrorizou as populações portuguesas.

O saque, as violações e os assassínios foram impiedosamente praticados pelos homens de Loison, como represália pela resistência ao invasor observada em diversos pontos do país. Quem era apanhado por Loison, correntemente era morto. Por isso, ainda há uns anos atrás, a expressão popular “ir para o maneta ” era utilizada com alguma frequência, designadamente aqui no Minho, significando “morrer”.

Retomando então um pensamento e um linguajar popular, agora quase obliterados, sugeria que procuremos manter-nos fora do alcance de Loison, que evitemos “ir para o maneta”. Ou seja: exijamos e contribuamos para uma diminuição da sinistralidade rodoviária!




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