Fotografia:
Fatalidades da vida

Nunca ninguém me disseE gostaria de saber
Porque é que um homem nasce
Se um homem tem de morrer?

N/D
18 Mar 2005

Meditabundo, lentamente, transido da dor alheia que também nos toca fui-me aproximando da Igreja, onde dentro e fora pessoas, de semblante carregado, a maior parte delas ligada ao foro, cogitando umas, falando baixinho outras, apinhavam-se, assistindo às cerimónias fúnebres que decorriam nesse funesto ambiente de tristeza e dor.

Entrei. Junto ao altar jaziam os restos mortais – o último fato da alma – de uma mulher que havia conhecido e com quem tantas vezes havia cruzado, aquando das nossas lides académicas daquela imponente Coimbra do Mondego.

Fins da década de sessenta e princípios dos anos setenta. Bem perto, sangravam corações dos seus três filhos e do marido. Perplexo, perdido em pensamentos nostálgicos, ia-me interrogando sobre as contrariedades da vida.

Onde começa e acaba a felicidade do ser humano! Conheci-os felizes, naquelas andanças académicas, ainda só amigos. Mais tarde, talvez uma palavra, ou, sei lá, um terno olhar que tivesse brotado lá bem do fundo de uma alma inebriada de amor, os juntasse para partilharem em comum esta efémera passagem pela vida terrena.

E assim caminharam unidos tantos anos que foram poucos porque podiam ser mais, muito mais. Constituíram um núcleo indissolúvel de família que felizmente abrangia o pater família Tarroso Gomes e a mãe que eram como que o sol à volta do qual diariamente rodavam o filho, os netos e a mãe destes.

Não poucas vezes, o Luís, na companhia do avô, partilhava, ao fim da tarde, o convívio do grupo de amigos, no Café Sporting, logo à entrada e à esquerda.

Que vida esta! Um verdadeiro inferno para muitos e réstias de um céu para muito poucos, ao qual eu me juntava uma vez ou outra. Perder pai e avô, há tão pouco tempo, é péssimo, mas perder mulher e mãe logo a seguir é tragédia.

Marcas de uma memória que só a morte há-de um dia apagar para sempre.

Minha mulher surpreende-me ao despontar daquela manhã cinzenta: Prepara-te: “Morreu a mãe do Luís”. Luís, o companheiro dela, partilhando a mesma pista na piscina municipal, tantas vezes, descontraidamente, dando umas braçadas. Com ele mantém uma relação afectiva como eu também.

Diz que não parece jovem desta geração, que tem pose de príncipe, do tempo em que havia príncipes de punhos de renda. Tantas vezes me dizia que ficou emocionada quando, ainda recentemente, o viu conduzir carinhosamente a avó que caminhava penosamente não pela idade, mas pelo peso das saudades daquele que a ela dedicou inteiramente uma vida feliz.

Também cruzei tantas vezes com essa distinta senhora. Jamais me esquecerá o dia chuvoso em que, por segundos, parámos. De pronto, me advertiu: “Que é isso Dr. Barroso, com essa cabeça que faz livros tão lindos, à chuva?”.

Achei-lhe tanta graça que, num dos dias seguintes, isso mesmo disse ao então ainda marido, e também ao filho Zé Manel.

Voltando à mãe e à esposa que se despediu deste mundo conturbado e do qual pouco podem esperar as gerações de jovens de hoje e muito menos as gerações do amanhã, já o esperava desde o dia em que com ela cruzei, na Avenida da Liberdade, e se limitou a uma singela saudação. Já não era a mesma.

Havia-se já apagado aquele sorriso afável que lhe iluminava o rosto, ainda a fazer lembrar a juventude dos saudosos tempos da nossa Coimbra, onde o seu coração havia despertado para uma nova vida, vivida, a seguir, nesta histórica cidade de Braga.

A cínica mão da morte andava já por perto e ela certamente a sentia com a angústia de ter de deixar para sempre os seus entes queridos. Deixem-me desabafar: Nunca ninguém me disse/E gostaria de saber /Porque é que um homem nasce/Se um homem tem de morrer?

Fatalidades da vida.




Notícias relacionadas


Scroll Up