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Água, a poupança da treta

A posse do governo Sócrates coincidiu (não há coincidências) com a mais violenta ofensiva de que há memória contra os consumidores do bem fundamental que é a água.

N/D
18 Mar 2005

O pretexto é a seca.
As medidas, que mais parecem ameaças, são o aumento brutal das tarifas (fala-se em duplicar o preço) e a proibição (a coberto da interpretação abusiva de uma directiva comunitária) da utilização de fontes e poços particulares.

À falta de melhores argumentos – a imaginação dos políticos não é muito fértil – foram buscar o princípio do utilizador-pagador, pau para toda a colher.

E as condições para avançar com tais medidas nunca foram tão favoráveis. Para além da “bendita” seca, temos finalmente uma maioria absoluta socialista – assim, a contestação à esquerda será mínima – e governantes que já deram provas de pôr em primeiro lugar os interesses dos sistemas plurimunicipais de abastecimento de água.

Quem não se recorda das pressões sobre as câmaras municipais mais renitentes em aderir aos grandes sistemas? Pois bem, era então José Sócrates ministro do Ambiente e Mário Lino presidente da empresa Águas de Portugal…

A preparação dos consumidores também não tem sido descurada. A propaganda na imprensa é diária e, para calar eventuais vozes discordantes, não tem faltado a preciosa ajuda das associações ambientalistas, mais papistas que o papa, para quem o consumidor que descarrega o autoclismo várias vezes ao dia é o inimigo público a abater.

Os mesmos ambientalistas que guardaram um sepulcral silêncio, quando foi denunciada a contaminação com arsénio em Trás-os-Montes…

A necessidade de campanhas de intoxicação da opinião pública deve-se a um facto incontornável: nem o aumento do preço da água, nem muito menos a perseguição a quem tira a água do seu poço, vão contribuir significativamente para minorar as consequências da seca.

Há dias, o Diário de Notícias deu-se ao trabalho de comparar os preços em várias zonas do país, tendo constatado a existência de enormes disparidades nos montantes pagos.

Por exemplo, quem gaste mensalmente 18 m3, paga 5,69 euros na Moita, 7,40 euros no Barreiro, 17,26 euros no Porto e, finalmente, 22,78 euros em Loures, o triplo do Barreiro e quatro vezes mais que na Moita.

Sabe-se porquê: municípios com captações próprias, como a Moita e o Barreiro, não têm de comprar água aos grandes sistemas; além disso, como a água é de origem subterrânea, não requer um tratamento tão drástico e tão caro como a maioria das águas captadas em albufeiras que, em consequência do tratamento, apresentam frequentemente elevados teores dos cancerígenos tri-halometanos.

Pois bem, apesar da factura da água ser tão diferente, os consumos médios anuais por agregado familiar nestes (e noutros) municípios são praticamente os mesmos: 96 m3 na Moita, 95 no Barreiro, 119 no Porto e 104 em Loures.

Ou seja, aumentar o preço não vai diminuir o consumo, vai é fazer crescer – é este o verdadeiro cerne da questão – os lucros das empresas distribuidoras de água. Tanto mais que, passado o período de seca, os preços não voltariam a baixar.

Sabe-se também que apenas 10 por cento da água distribuída é gasta pelos utentes particulares (a maior fatia cabe à agricultura e à indústria) e que cerca de 50 por cento da água captada é perdida em roturas nas condutas, antes de chegar às torneiras.

Por isso, se se pretendesse mesmo economizar água, as prioridades seriam outras.

Mas a prova evidente de que o objectivo não é poupar foi a intenção, recentemente anunciada, de combater as fontes e poços particulares (ou comunitários) que ainda abastecem milhões de utentes, especialmente no Norte e no Centro.

Algo semelhante se passou com as captações subterrâneas que abasteciam freguesias inteiras, que foram deixadas em total abandono a partir do momento em que as autarquias aderiram às Águas de Portugal.

Mas como compreender que, com rios e albufeiras nos seus níveis mais baixos, se abandone a única alternativa viável? Responda o leitor, se puder.

Em resumo, culpabilizar os consumidores domésticos pelo esbanjamento de água, penalizá-los duramente com o aumento das tarifas, levá-los a não consumir águas subterrâneas, são as três vertentes de uma campanha de manipulação da opinião pública, cujo único objectivo é aumentar ainda mais os lucros das grandes empresas de distribuição de água.

Houve sempre quem enriquecesse com as guerras e as epidemias. E com as secas?




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