Fotografia:
Um olhar em redor

Escrevo há muito, naturalmente, tal qual como respiro. Nunca, porém, em espaço tão consagrado como este que o “Diário do Minho” me concedeu, diga-se de passagem e sem desprimor relativamente a outras colunas já por mim ocupadas em diferentes jornais.

N/D
17 Mar 2005

Uma vez que assim é, importa que a respiração, neste caso, seja saudável, não entrecortada, ofegante, ou seja, sem ofender a gramática, as regras da nossa tão bela e tão rica linguagem.
Caberá no entanto ao leitor, juiz soberano nestas matérias, proferir o seu veredicto, após uma apropriada e competente “auscultação” ao texto em apreço.

Estes meus escritos, abarcando os mais diversos temas – breves clarões do pensamento se preferirem – são especialmente destinados àqueles leitores amáveis e tolerantes, cuja formação moral lhes permite resistirem à onda de materialismo envolvente, avassaladora, que nos cerca e parece caracterizar cada vez mais a época em que vivemos.

Com efeito, não podemos deixar de sentir um grande constrangimento, um certo desencanto até, face ao nenhum apreço em que são tidos, entre nós, todos aqueles que, devotadamente, se empenham nos domínios da ciência e da cultura em geral, a par de um enorme desrespeito pelos princípios fundamentais da justiça, do direito e da razão – em benefício do protagonismo da força, da violência gratuita e das proezas daqueles para quem a honestidade, o carácter e o civismo se resumem a palavras vazias de sentido e sem a menor cotação nos tempos que correm.

Vive-se actualmente, e sofre-se!, como que um clima de grande egoísmo, assistindo-se também à derrocada progressiva de alguns daqueles padrões de comportamento pelos quais nos batíamos, tais como:

o desempenho escrupuloso de um cargo uma vez nele investidos, a lhaneza no trato como norma e não como excepção, a lealdade, a competência, o respeito pela palavra dada, a consideração devida aos mais velhos e às crianças, o são convívio com os amigos nas horas vagas.

Contudo, ante este quadro actual que nos entristece e confunde, impõe-se que procuremos um abrigo seguro, um refúgio, onde possamos fruir de uma certa “paz interior”, pondo cobro, ou atenuando, o tumultuar dos nossos sentimentos e tão rudemente postos à prova, sendo que em tais circunstâncias, e no caso particular do autor destas linhas, estes meros desabafos são já suficientes em vista ao almejado equilíbrio emocional.

Assim a recíproca fosse igualmente um facto…

Prosseguindo, e a propósito destas minhas considerações, veja-se o modo exagerado, descabido, como são distinguidos e incensados, presentemente (até nos telejornais!), todos aqueles cujos méritos principais assentam na sua força física ou destreza atlética, enquanto são votadas ao ostracismo figuras proeminentes, não apenas pelas suas criações imortais mas, até, pelo seu constante sacrifício em prol da humanidade.

Nada me move quanto aos primeiros, nomeadamente em relação aos chamados craques da bola (é um fenómeno universal…), mas perdeu-se, sem dúvida, a noção das proporções – e por isso, quando algum desses “astros” adoece, ou sofre uma luxação, logo o mundo inteiro toma conhecimento do facto.

E é um constrangimento: repórteres especializados (nunca foram tantos) invadem-lhes a casa, o quarto onde estão colhidos, apostados em descreverem, pormenorizadamente, como aconteceu tudo aquilo, ao mesmo tempo que a TV, oportuníssima, nos assegura até à exaustão imagens da região atingida, mostrando os hematomas, as equimoses sofridas!

Enquanto isso, esquecem-se assim, como convém, os verdadeiros problemas com que se debate o país pelo que, e em relação a outras eras, pouco ou nada mudou de então para cá, liberdade de expressão à parte e, ainda, a querida televisão, que só muito mais tarde fez a sua aparição, entrando-nos pela casa dentro e acabando, de vez, com o diálogo no seio das famílias…




Notícias relacionadas


Scroll Up