Fotografia:
Não há tempo a perder

Que o tempo e as energias gastos com a defesa da descriminalização do aborto se dediquem a causas verdadeiramente úteis, verdadeiramentenecessárias, verdadeiramente importantes, verdadeiramente urgentes

N/D
17 Mar 2005

Quando cresce o número de situações de pobreza em Portugal; quando as falências progridem, as empresas fecham ou se transferem para outros países e é maior o número de desempregados;

quando, numa sociedade em que é necessário produzir cada vez mais, com melhor qualidade e a preços mais competitivos, se não estimula a criatividade mas se provoca a instabilidade e fomenta a luta de classes;

quando há pessoas a viverem em «casas» sem o mínimo de condições de habitabilidade;

quando há doentes nos corredores dos hospitais por não existirem camas em número suficiente, continuam as listas de espera e há cidadãos sem médico de família;
quando há populações que ainda não são abastecidas pela rede pública de água e saneamento e esgotos correm a céu aberto;

quando tarda em surgir na justiça uma reforma que há muito dizem ser urgente e se clama por uma justiça mais rápida e mais acessível;

quando, numa sociedade em que se fala muito de justiça social, há ricos que cada vez se tornam mais ricos e pobres que cada vez empobrecem mais;

quando se não paga à Segurança Social, permanecem as fraudes fiscais, há reformados com pensões excessivamente baixas;

quando há dinheiro para ser gasto em pílulas anticonceptivas e em preservativos e o não há para fornecer gratuitamente medicamentos indispensáveis a doentes carenciados economicamente;

quando o ensino como que se divorciou da educação, atingiu níveis de qualidade que deixam a desejar e há professores maltratados pelos alunos;

quando se entra no Ensino Superior com médias negativas;

quando os crimes violentos são uma prática cada vez mais preocupante, continuam os assaltos e os roubos, os cidadãos se sentem inseguros e forças de segurança são brutalmente agredidas;

quando são mais que muitas as suspeitas de corrupção;

quando existe a convicção de que se vive no reino da cunha e da chapelada e de que nada consegue quem não move influências;

quando permanece realidade a chaga da toxicodependência e continua próspero o negócio do tráfico de drogas;

quando acontece tudo isto e o mais que não enumero, pessoas consideradas muito responsáveis, neste recomeço de legislatura da Assembleia da República, vieram a público mais uma vez a defenderem a descriminalização do aborto, que nada mais é, em minha opinião, do que dar licença para matar.

Sim, licença para matar, já que provocar a morte de um ser humano inocente e indefeso é um acto verdadeiramente condenável e um atentado ao mais elementar dos direitos humanos, que é o direito à vida.

Será que numa sociedade com tantos problemas a primeira prioridade nacional é o direito de matar? Será que, trazendo mais uma vez a questão do aborto, pretendem distrair os cidadãos da realidade preocupante do dia a dia?

Sejamos realistas.

É urgente dizer, sem rodeios, ser necessário pôr de lado tricas e caprichos, teimosias e birras e empenhar-se com todo o entusiasmo na prossecução do bem comum.

É urgente solicitar a certas pessoas que desçam do assento etéreo onde subiram e aterrem neste País que é o nosso, analisem os reais problemas das populações e busquem para eles as mais humanas, as mais justas, as mais sensatas soluções, mesmo que sejam as que menos lhes agradam, as que menos lhes convêm, as mais impopulares.

Que o tempo e as energias gastos com a defesa da descriminalização do aborto se dediquem a causas verdadeiramente úteis, verdadeiramente necessárias, verdadeiramente importantes, verdadeiramente urgentes.




Notícias relacionadas


Scroll Up