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Necessário ver com quatro ou seis olhos

O recém-eleito Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, o bispo de Bilbao, no País Vasco, Ricardo Blásquez, já se habituou à dificílima tarefa de ser pastor numa diocese que «vive numa sociedade muito tensa, que vive os problemas com intensidade.

N/D
16 Mar 2005

É uma sociedade muito viva na qual tive necessidade de estar muito bem informado, conhecer matizes, escutar uns e outros. Ser bispo no País Vasco exige muita atenção e requer que não só sejam dois os olhos que vêem, mas quatro ou seis».
Foi este bispo, oriundo da terra de santa Teresa e que apelou a dois dos pensamentos desta doutora da igreja que tinham sido objecto de um dos cânticos da eucaristia que precedeu a votação: «Nada te perturbe, nada te espante», o escolhido pelo episcopado espanhol depois de, à segunda votação, o até então presidente, cardeal Rouco Varela, ter falhado a eleição para um terceiro triénio por lhe faltar um voto para atingir os dois terços exigidos neste caso. Rouco Varela obteve 51 votos entre 77 bispos votantes e precisava de 52. Posta de parte a hipótese da reeleição de Rouco Varela, a eleição recaiu em Ricardo Blásquez, com 40 votos, sendo 37 para António Cañizares, arcebispo de Toledo que, todavia, foi depois eleito para vice-presidente com 41 votos.

Dado o ambiente de forte crispação entre a Igreja e o governo de Zapatero, ao ponto de, em Janeiro último, chamar o núncio Monteiro de Castro, nosso patrício, a dar explicações quanto ao discurso do Papa dirigido a uma parte dos bispos espanhóis que tinham ido em visita «ad limina» a Roma e que tinha sido incorrectamente interpretado por muita imprensa e pelo próprio governo espanhol, a eleição de Blásquez foi interpretada pelos apaniguados do governo como derrota de Rouco Varela, a quem apelidam de conservador e pouco dialogante.

Sendo certo que poucos dias antes, sob a sua presidência, tinha havido o primeiro encontro formal entre representantes da Conferência Episcopal, o seu vice-presidente, Fernando Sebastián, com a vice-presidente do Governo, Fernandez de la Veja. E tinha havido um comunicado conjunto a falar das relações de cordialidade mantidas e da necessidade de continuar com um diálogo franco e sereno, mas respeitador da verdade.

Estamos aqui tão perto de Espanha, mas a realidade mais profunda do que se passa no país vizinho escapa à generalidade das pessoas, pois que os nossos correspondentes em Madrid, quando os há, alinham pelo politicamente correcto.

E isso significa dizer que com Zapatero tudo está no melhor dos mundos, apesar das mudanças profundas que a sua chegada ao governo significou, não sendo excepção as relações com a Igreja, cujos acordos de 1979 com a Santa Sé quer rever, sobretudo no que diz respeito à financiação pública e às aulas de religião nas escolas, pese embora o facto assombroso de 79,3% dos pais espanhóis solicitarem tal disciplina para os seus filhos.

Não falamos sequer dos projectos de liberalização do aborto, de legalização dos casamentos homossexuais, da adopção de crianças por tais pessoas assim unidas, das experiências com células estaminais e do caminho aberto para a eutanásia a pedido.

A reacção do jornal «El País», do grupo editorial Prisa, detentor da maioria dos meios de comunicação social, na rádio sobretudo, mas também a caminho de tal na televisão, nas revistas e nos jornais de maior influência, é sintomática do sentir do Governo espanhol, pois é quase aceite que o Governo se limita a seguir as indicações que o grupo Prisa lhe dá, sobretudo através do mencionado diário.

Custa a acreditar, mas na vizinha Espanha vive-se, hoje, um problema de verdadeira liberdade de informação. A começar pelas restrições e limitações que impõem à cadeia de rádio a COPE, que é para Espanha algo parecido ao que a Renascença é em Portugal, mas que não tem a liberdade de difusão e acção que tem a RR.

O novo Presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) é um homem intimamente amigo do cardeal Rouco Varela, de quem foi aliás bispo auxiliar quando ele era arcebispo de Santiago de Compostela, tendo também com ele coincidido nos órgãos directivos da Pontifícia Universidade de Salamanca. A sua nomeação para Bilbao, há quase 10 anos, foi mal recebida pelos nacionalistas vascos, por não ser Vasco e porque não dominava a língua vascã, o euskera.

Mas Ricardo Blásques não só aprendeu a língua basca com o seu bispo auxiliar, como foi ganhando a simpatia dos crentes e dos cidadãos, mesmo quando em 2002 teve um enfrentamento com o governo de Asnar por ter assinado uma carta pastoral conjunta dos bispos vascos denunciando algumas determinações da lei de partidos, sobretudo a ilegalização política do Batasuna, o braço político da ETA.

Passada a primeira impressão, o que fica é que o novo presidente da CEE, a cujo órgão colectivo pertence também por inerência o cardeal Rouco Varela, é um teólogo de créditos firmados, fiel à doutrina da igreja, tendo sido o responsável pela Comissão Episcopal da Doutrina da Fé, à frente da qual soube ser firme e ao mesmo tempo dialogante.

Quem mais de perto o tem acompanhado em Bilbao, diz que não lhe faltaram os espinhos no seu ministério. Algumas das suas sugestões para conciliar nacionalismo e abertura aos outros terão caído em saco roto. Outras precisam de mais tempo para amadurecer.

Agora é ele o responsável máximo dos assuntos que afectam ao conjunto da Igreja em Espanha. Mas já provou a sua capacidade para o debate cultural, a sua abertura e avaliação dos novos carismas eclesiais, e a sua sintonia plena com a urgência de uma nova evangelização, como assinala o vigente Plano Pastoral da CEE. E não realizará sozinho tal trabalho, mas em sintonia e estreita comunhão com o conjunto dos bispos, começando pelo vice-presidente Cañizares e o cardeal Rouco, seu antigo mestre e íntimo amigo.

A mentalidade laicista e não apenas aconfessional que varre Espanha e outros países da Europa não desaparece por um toque de mágica. Urge uma nova evangelização. Tarefa de todos os dias e de todos os principais agentes, neles incluídos os que se confessam cristãos.

Definir em que ela consiste realmente e comprometer nela os cristãos é realmente uma tarefa a exigir cada vez mais um olhar atento e lúcido, um ouvido paciente, amoroso e terno, e um coração inteiramente aberto à radicalidade do evangelho e ao que de melhor ele nos propõe: a certeza de que Deus nunca falta e continuamente se nos dá até ao que, no feliz título de João Duque, poderemos denominar «o excesso do Dom».

Só na medida em que cada dia mais nos descentramos e nos damos aos outros é que estaremos a lançar as sementes da nova evangelização cujos frutos podem ser afectados pelas diferentes «secas», mas que nunca deixarão de se produzir se a nossa crença acreditar no Dom continuamente oferecido e o acreditar com a vida de cada dia.




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