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Loas aos transfugas…

Mais de trinta anos decorridos sobre a ‘revolução de Abril’ vemos surgir inúmeros sinais de adaptação a quem vence, pouco importando o significado mais ou menos questionável sobre o passado recente ou mesmo que isso possa desdizer sobre causas e/ou ideologias anteriormente defendidas.

N/D
16 Mar 2005

Que muitos dos actuais governantes – por essa Europa fora e em Portugal em particular – tenham sido na juventude acérrimos defensores de mentalidade esquerdista/maoísta/leninista/anarquista… faz como que parte da evolução (maturidade ou visão mais ponderada) de homens e mulheres com capacidade de entrega aos ideais de quererem mudar o mundo… num certo idealismo (necessário, correcto e juvenil).
Por outro lado – embora em menor número – temos assistido a certas figuras que fazem percursos no sentido inverso: na idade de jovens eram (se é que eram de verdade!) paladinos da moderação, de uma certa ‘direita civilizada’ e com projecto, mas que depois foram radicalizando posições, estando nos antípodas ideológicos e perfilando mesmo métodos, nalguns casos, que já combateram…

Que os partidos de governo em Portugal nos apresentem exemplares da primeira situação é ‘quase normal’: ministros que são hoje da maioria foram deputados de primeira linha na bancada comunista; deputados sociais democratas combateram na barricada – o termo não é só figurado – que agora invectivam; adversários de antanho tornam-se correligionários, comparsas e figuras de Estado.

Para exemplificar a segunda situação podemos apresentar Freitas do Amaral (FA): fundador do CDS, vice-primeiro ministro da AD, candidato da direita às presidenciais em 1986… Presidente da 50.ª assembleia geral da ONU – foi a viragem… Dos Estados Unidos trouxe um certo azedume patente em escritos, posições de rua (manifestações anti-guerra e outros adereços), colagens bem calculadas e agora ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

Desta mobilidade quase só temos ouvido tecer loas, tal o interesse em conquistar simpatias, em gerar confusão ou mesmo em atribuir mérito a quem se coaduna com as posições reinantes. E se Mário Soares tivesse uma mudança – da sua esquerda mais ou menos moderada para uma certa direita conciliadora – como Freitas do Amaral: qual o rótulo com que seria apelidado?

Tanta mudança de FA significa evolução ou oportunismo? Será de levar a sério o que FA diz, tal a vulnerabilidade com que nos tem escandalizado? Portugal precisa de figuras assim transgénicas para se afirmar no panorama europeu e mundial? Quem nos irá levar a sério quando, quem nos representa, parece ter pouco de conduta séria?

Camilo Castelo Branco escreveu «Cabeça, coração e estômago». Do seu percurso humano (mais do que só literário) sabe-se que escrevia em grande parte para sobreviver. Será que Freitas do Amaral vai redigir – sintonizando a sua versão de professor com a de dramaturgo e agora a de diplomata – algo como «Estômago, coração e cabeça», fazendo crer que a sua mudança – política, ideológica e social – é mais do que uma adaptação de circunstância?

Contra estes transfugas, marchar, marchar e denunciar… já e em força!




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